Qualquer paixão, qualquer impaciencia Se vence com discurso, e com prudencia.
POLYFEMO.
Tão desgraçado sou, que neste empenho Nem já discurso, nem prudencia tenho: Quem vio tão enredado labyrintho Como este, que na idéa, e n'alma sinto! Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, Ou me livrai de confusão tão forte; Eu se vingar-me vou, me precipito; Porque aos Deoses offende o meu delicto: Se assento em perdoar, não persevero, Porque em vendo o offensor, logo me altero; Porém hum novo meio já me occorre: Melhor acerta, quem melhor discorre. Eu não quero incitar ao Ceo clemente, Mas para não vingar-me do insolente, Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo A cinza quente exhalaria fogo. Deixarei estes monte, estes prados, Que a verdura me davão para os gados: Irei viver nas mais occultas brenhas, Onde gente não veja, mas só penhas: Da vingança, e d'affronta assim me privo, E ninguem sabe se sou morto ou vivo.
LAURINDO.
Resolves bem, amigo; sim, he justo Fugires do perigo a todo o custo; Porque busca a desgraça todo aquelle, Que vendo o damno, não se aparta delle: Perca-se a Patria, perca-se a fazenda, Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda. Tu sim perdes lavoiras, e o serrado; Mas o Ceo, que esses bens te havia dado, Te dará novos campos mais extensos, Donde possas colher frutos immensos: Quem perder pelo Ceo, fique esperando, Que em vez da perda, ficará lucrando: Se a tua choça perdes, caro amigo, A minha he grande, vivirás comigo: Para a tua lavoira dar-te-hei terra Da campina, que tenho, além da serra; Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas, Donde colhas as tâmaras gostosas: Dar-te-hei duas formosas aveleiras, Tortas sepas, viçosas oliveiras: E do mais fruto, que o Ceo der, pendente Repartiremos ambos irmãmente. Para o gado lá tens viçosa relva, Lá tens para o recreio a linda selva, Onde acharás hum bosque mui sombrio, De huma parte arvoredo, d'outra hum rio: Alli se ouvem os pássaros cantando, Alli se escuta o rio murmurando, Nelle andão de contínuo os pescadores, Nelle pescão tambem alguns Pastores O saboroso peixe á longa cana, Ou com o iscado anzol, que mais o engana: Em fim, he campo ameno, he deleitavel, Fructuosa a terra, o clima saudavel: Lá vivirás, amigo, descançado, Sem ver a causa do mortal cuidado: Pois naquella distancia por extensa Não vês o offensor, nem vês a offensa.
POLYFEMO.
Discreto amigo, amigo verdadeiro, Tu fostes dos humanos o primeiro, Que me soube vencer: eu que algum dia Nem a razão, nem Deoses conhecia, Hoje a razão abraço, os Deoses temo; Tu me fizeste hum novo Polyfemo.
LAURINDO.
Convence-te a razão, porque és humano, Que a razão só não doma o bruto insano.