Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a falar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei naquele instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou isso aí fora, com que ella ouviu que um isso a lamentava. Deitei fora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a irritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo, retorqui-lhe benévolo e grosseiro:
—Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» p'rá ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é lamentável. P'ra mais,{14} conforme vejo no letreiro, foi um comendador que a ofereceu... E a gaiola...
—Que tem? Falta de estilo?
—Está cheia de excrementos. Está indecente.
—Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...
Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta estirpe, de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste poleiro onde agora a ouvia perorar num claro entardecer de intimidade, com idilios de guardas e criadas, raros bebés jogando às escondidas e um homem a varrer as fôlhas sêcas. Coçava-se a hesitar, com o bico baixo. Sacudio as longas asas poeirentas e com uma voz de sono, começou:
—De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e num crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira{15} de nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo desceu ao morro numa gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas bravas... Rasgou o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, doida, na alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro. Porque ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.
Amuei, retorqui num tom mimalho:
—Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de uma curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.
—Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado e não traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E quere agora o senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o pagou) violar o murmúrio que tem séculos,{16} e é a última vibração daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais? Estou já arrependida de falar.