—A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos quando não temos força moral p'ròs convencer.

—A música é o médium do mistério.

—A eternidade é a sensação de alguns instantes...

Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação grave, quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos dum condenado à morte.

Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula; na aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros momentos de admiração{214} por uma obra-prima; na vertigem da criação sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou, segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».

—Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com a vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».

É isto que eu agora digo à Vida.

Testamento dum pobre—Se eu morrer na primavera, envolvam em feno aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas, deixem-me decompor assim—com tantos vermes como borboletas!

Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de veludo. Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!

Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando, sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no{215} roxo outono, morto, o mais feliz dos mortos, cada corvo que vier grasnando—há-de partir de gula o bico curvo contra o meu crânio em que há pétalas murchas...