Afasto-os eu, com a mão.
Durma menino, a dormir
Não ouve o seu coração,
E p'ra o ajudar a dormir
Eu canto-lhe uma canção:
Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo,
Um moço Rey... de lindos olhos verdes;
(Senhor! se a luz dos vossos, perderdes,
Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)
Andava o moço Rey com seu gibão
De prata branca, reluzente d'oiros.
Tinha em anneis os seus cabellos loiros,
No céu era anjo e cá... Sebastião.
—Quem é, Thereza? quem é, Thereza?
Não ouves passos, que vão pela serra
Não ouves gritos, quem é, Thereza?
—É D. Sebastião que vae para a guerra.
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Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes,
E a chuva tomba sem parar um só momento,
A chuva que parece de pontas de alfinetes,
Por uma tarde triste assim, é que Anrique
Partiu. De novo abandonou o seu solar.
Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique,
E Thereza bem faz tambem pelo guardar.
Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
Anrique foi bater á porta d'um convento.
Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar.
«Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».
Frades! meus Frades! ai abri-me a porta!
Abri-me a porta, que eu pretendo entrar.
Eu trago a alma toda ferida, morta,
Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!
Ha quantos annos vós estaes fechados
N'estas muralhas de granito e cal!
Ah se soubesseis, Frades corcovados!
O que vae lá por fóra, em Portugal!
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Anrique, até que emfim cedes ás magoas!
Até que emfim eu vejo-te chorar!
Chorae, chorae, ó longos fios de agoas!
Ó olhos grandes como os globos do Ar!
Ah chora Anrique, chora nos meus braços
O moço Poeta que te está a cantar!
Choremos entre beijos, entre abraços,
Tambem eu choro por te vêr chorar!
Ah chora Anrique, chora, não te escondas!
Tens pudor que te venham encontrar?
Choram os cannaviaes, choram as ondas,
Só os cynicos não podem chorar!...
Ah chora, Anrique, chora no meu peito,
Assim baixinho, lento, devagar!
Custa-te muito? não estás affeito!
Chora, meu filho, que é tão bom chorar!