Destes algarismos evidencia-se que a capital da Bolivia auferirá vantagens consideraveis commerciando com o exterior pela via do Madeira de preferencia á costumada de Cobija, quer faça seu entreposto em Santa Cruz de la Sierra, quer em Cochabamba, cidades estas que poderão disputar entre si os beneficios de servil-a. O natural, porém, é que, respeitando a corrente dos negocios já estabelecida, Santa Cruz com seu porto no Guapay seja a primeira escala para o Atlantico do trafego de Sucre, de seu departamento e tambem de toda a parte meridional da Bolivia, ao passo que Cochabamba com o porto de Vinchuta sel-o-ha para o centro e norte da republica.
Applicando calculos analogos ás capitaes dos outros departamentos, chega-se aos resultados, que vão consignados no adjunto quadro synoptico e que demonstrão com o argumento incontestavel dos algarismos toda a amplidão, que é capaz de alcançar em virtude da economia dos fretes o commercio da Bolivia por meio das aguas do Amazonas, quando o vapor sulcando as vias navegaveis encurtar todas as distancias e uma estrada de rodagem supprimir o transito difficultoso das cachoeiras do Madeira.
| Quadro synoptico, comparativo dos fretes da Europa ás capitaes dosdepartamentos da Bolivia, pela via do Pacifico e pela do Amazonas. | ||||
| Frete de uma tonelada. | Differença. | |||
| Nomes das capitaes. | Por Arica ou por Cobija. | Pela via do Amazonas | +favoravel á via do Pacifico. | - favoravel á via do Amazonas |
| Trinidad. | $268,20(1) | $76,00 | - | $ 192,20 |
| Santa Cruz. | 333,00(2) | 112,00(3) | - | 221,00 |
| Cochabamba. | 229,00(4) | 124,00(5) | - | 105,00 |
| Oruro. | 243,40(6) | 156,80(7) | - | 68,60 |
| Sucre. | 277,00(8) | 168,00(9) | - | 109,00 |
| Potosi. | 223,40(10) | 191,20(11) | - | 32,29 |
| Tarija. | 279,40(12) | 244,80(13) | - | 34,60 |
| La Paz. | 165,00(14) | 188,00(15) | + | 23,00 |
| (1) Caminho de La Paz, Cochabamba, Vinchuta e d'ahi descendo os riosChaparé e Mamoré. | ||||
| (2) Via de Cobija e Sucre com o modico preço d'ahi a Santa Cruz de 7pesos por carga de 10 arrobas. | ||||
| (3) Pela navegação dos rios até o porto do Rio Grande, a 10 leguas dacidade de Santa Cruz. | ||||
| (4) Via de Arica e La Paz. | ||||
| (5) Navegação fluvial até Vinchuta. Caminho melhorado d'ahi aCochabamba, Frete de 1 centavo por legua e por arroba. | ||||
| (6) Via de Arica e La Paz. Fretes actuaes. | ||||
| (7) Por Vinchuta e Cochabamba. Frete por terra de 1 centavo por legua epor arroba. | ||||
| (8) Pelo porto de Cobija com os fretes usuaes. | ||||
| (9) Via de Santa Cruz e porto fronteiro do rio Mamoré. Transporte deSanta Cruz a Sucre a 7 pesos por 10 arrobas. | ||||
| (10) Pelo porto de Cobija. Fretes costumados. | ||||
| (11) Via de Santa Cruz e Sucre. | ||||
| (12) Por Cobija e Potosi. Entre Potosi e Tarija 8 pesos por carga de 10arrobas. | ||||
| (13) Pelo caminho de Sucre a Tarija. Frete de 1 centavo por legua e porarroba. | ||||
| (14) Via de Arica. | ||||
| (15) Via de Vinchuta e Cochabamba. | ||||
Os algarismos, confrontados no quadro precedente, patenteião que ha vantagem economica de commerciar pela via do Madeira, para 7 dos 9 departamentos em que a Bolivia se acha dividida.
Os que restão, para que apparece preferivel a via do Pacifico, são: La Paz pelo porto Peruano de Arica, e Cobija que pelo facto de ficar a beira mar está fóra de questão.
Comtudo, posto que a via de Arica se avantaje á de Cochabamba e Vinchuta para o trafego de La Paz com o exterior, fica ainda por decidir se o mesmo acontecerá, dada a possibilidade de navegar-se o Beni e algum de seus affluentes até o pé da Cordilheira.
Em tal caso, La Paz possuiria um porto fluvial com sahida para o Atlantico em posição analoga á de Vinchuta relativamente a Cochabamba, e não necessitando o seu commercio de fazer o longo rodeio por esta cidade para chegar ao principio da navegação fluvial, provavelmente poderia conseguir pelas aguas do Madeira fretes menos elevados do que os que ora lhe faculta a via do Pacifico.
Entretanto, independente disto, para as provincias do departamento de La Paz comprehendidas n'um circulo de 30 a 40 leguas traçado com o centro em Cochabamba, o calculo dos fretes ainda leva a preferir o commercio pela via do Madeira, passando por esta cidade, ao que se faz pelo Pacifico; assim como para as provincias, situadas nas encostas e nos plainos baixos a leste da Cordilheira, o caminho natural é o curso do Beni.
Nestas e naquellas provincias certamente o departamento de La Paz contém um terço de sua população total, que foi a parte que suppozemos concorreria nelle para o trafego da linha do Madeira.
Portanto, pela consideração dos fretes não só subsistem a extensão e a população, attribuidas em virtude da distribuição dos rios á região boliviana, tributaria do futuro commercio do Madeira, como ellas se augmentão consideravelmente apropriando-se das que pertencem ao departamento de Oruro, á parte excluida do de Sucre e até aos de Potosi e Tarija; apezar de que este ultimo já esteja nos valles do Pilcomayo e do Vermejo, tributarios que são do Prata; e o de Potosi, tanto pela vizinhança com o de Tarija, como tambem pelo escoamento de suas aguas, pareça dever adoptar para permutar com o estrangeiro os canaes que conduzem a esse grande rio.