III
Necessidade do purgatorio
Quem quer que sejaes, senhor ou servo, rico ou pobre, esposo ou pai, viuva ou noiva, não negueis as expiações da vida futura. Não conheceis maus em prosperidade, cercados de respeitos, inaccessiveis á lei, e que se deitam e levantam sem remorsos? Não conheceis innocentes opprimidos, anciãos abandonados, orphãos desbalisados, pessoas honradas cuja vida é toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens ingratos e perversos? Se sois feliz hoje, sêl-o-heis amanhã? Convencei-vos de que negar a vida futura, seria o mesmo que negar a immortalidade da alma, e logo sua liberdade e responsabilidade; e, por consequencia, o mesmo seria negar virtude, direito, Providencia, e constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno, um sonho, um pesadêlo, onde tudo seria horror e abominação, excepto o nada, tudo injusto, excepto o crime victorioso, tudo absurdo, excepto a inveja, o egoismo, a violencia, e a astucia que se roja. Ah! crêde na vida futura, com suas expiações e recompensas. E, se ha quem exclua do ceo a piedade, não vades vós, por uma irracional desforra, excluir tambem do ceo a justiça.
IV
Mysterios
Não nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios.
Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por lá viajado. Pelo que elles dizem é paiz dos mais conhecidos: sabe-se o caminho, quaes são os seus productos, e qual o modo de viver dos seus moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que lá reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripções que fazem d'elle já physica, já moralmente.
Ácerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe do que la se passa: é portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia, sem impedimento de ser mysterioso, que differença! Quanto mais profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crêl-o. É o inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradicção, a confusão e o chaos. É o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma, como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o que existe e de que nós apenas conhecemos em sombra a existencia e apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para não poder duvidar. É elle tão certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. É por tanto o purgatorio, quanto á razão, o verdadeiro mysterio da justiça divina, assim como a Incarnação e a Paixão, quanto á fé, são o mysterio do Amor divino;—mysterio de justiça que, de mais a mais, se concilia maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno perpetuo seria a negação.
Muitissimo nos espanta que os protestantes o não vissem. Quando tinham que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo, sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razão, um dos dois que mais se harmonisava com as leis da razão e a moral do Evangelho.