Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?
Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que! n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque; anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos! desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam; queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o inferno ha de acabar.
Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido o dogma salutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.
Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás luzes e costumes do peccador,—como é que este dogma tão racional, certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o amor tem mais dominio que o medo?
Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:
Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum.