O inferno dos theologos não é, pois, identico ao inferno de Platão: o de Platão devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia, ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade já lh'a nós presentimos. Indagamos a razão d'uns padecimentos improficuos á victima, ao juiz, a todos. O coração protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito. Córa a gente só de o crêr. Como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que ás vezes, ao menos, adormece sobre a preza. Só pensar n'isto gera o atheismo na alma.
Erradamente, pois, se invoca, em pró de similhantes castigos, o testemunho de Platão, que se horrorisaria d'elles. Platão não condemnava o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa malograda; mas bem póde ser que elle condemnasse inflexivelmente S. Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Além de que, elle tinha, para admittir um inferno sem fim, razões que não temos; e nós, para o rejeitarmos, temos razões que elle ignorava.
CAPITULO SEGUNDO
Opinião dos pagãos sobre a situação e vista interior do inferno
Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.
Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis, o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi, que, segundo consta, quer dizer paiz da noite, estão o cão de sete cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as figurações do mundo devastado.
Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana, outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos. Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões ferventes. Uns vão fugindo, com os braços estendidos, e a cabeça quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.
Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel.
Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e clima.
Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.