Blasphemar que é? É negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser.

Negar-lhe a existencia é blasphemia; negar-lhe o poder é blasphemia; negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria é blasphemia.

A blasphemia é somente praticavel n'estas regiões de duvida e mysterio em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo cahiu na presença dos mortos.

Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam todos que Deus existe, que é eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a justiça como poderiam elles, se sentem até ao amago de seu ser a claridade ardente e purificante? E, se não podem negal-a, como ousariam affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das perfeições divinas elles negarão?

Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa lhes seria. Os condemnados negarão a bondade de Deus; injuriando-o de máo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de vingativo, de carrasco, e não juiz. Isto, com effeito, é que é blasphemar.

Mas estes impios discursos não os vociferam os mortos castigados por Deus; sois vós, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. Não acreditareis em tal. Máo grado vosso, a blasphemia vos fugirá da bôcca.

Os primeiros blasphemadores são, logo, os inventores d'aquelle imaginario supplicio. Á maneira dos idolatras, fraccionaram Deus, extremando entre justiça e bondade—attributos indistintos. De modo que essas presumidas blasphemias do inferno são sómente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.

VI

Deus é justiça e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da sua justiça ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que sómente a sua misericordia realça, ha um fundamento de justiça. É offendel-o dizer que é misericordioso sem justiça para uns, e justiceiro sem misericordia para outros. Isto é falso quanto ao tempo e quanto á eternidade. É justo Deus com os justos coroando-os, por que se a salvação d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e não recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois, dos bemaventurados reina tanta justiça quanta misericordia.

Mas, se Deus, no outro mundo, é justo para os eleitos, por que não ha de ser misericordioso com os peccadores?