Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o, não distinguia se era oração, se blasphemia.
E bradava:—Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E, se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim é—proseguiu a voz desesperada—anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.
Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar, a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento da justiça, porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.
E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão; chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.
CAPITULO NONO
JUDAS ISCARIOTE
I
Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno existisse um miseravel maior do que Judas.
Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas (João, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. Não obstante, vendeu-o; e, depois de o atraiçoar, voltou, ceou com elle, e, ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o não conhecessem, deu-lhes signal, abraçando-o. Eis aqui o crime circumstanciado. Premeditação, cubiça, villeza, tem de tudo. Judas vende o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixão, por bom dinheiro de contado, como venderia na feira um jumento ou um boi. Sabe que desejam matal-o; não importa! vende-o. E que será depois da Mãe de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de mãe e com a ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preço; e, a fallar verdade, nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros! dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.