No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio, ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como Pilato que lavava as mãos, como Herodes e sua côrte que riam de tudo, e como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas vezes estancára com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mão d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de piedade por que a não tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha sentido como então, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o coração, quão diverso do que fôra não seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as tentações lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as prisões de Jesus, e banhar-lhe os pés com suas lagrimas! Se podesse offerecer a vida a trôco da que o povo ía sacrificar! Com que prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado perdão de seu crime com tal condição!... Mas, ao longe, estrugia a grita da multidão enfuriada, bradando: «Crucifica-o!» Escutava o tropel dos cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os pregos nas mãos bemfazejas do amigo que elle vendêra. Iriçaram-se-lhe os cabellos, reçumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o chão debaixo dos pés. Oh! como Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e não como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. Não ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos pés. Com os proprios dentes lacerava os beiços. O sangue estuára-lhe nas veias. Aquelle viver já não era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um só sentimento: o horror do seu crime. O que elle levava pelos campos além era um cadaver já insensivel á dôr; e esse vil cadaver é o que elle estrangulou pendente da arvore. Fez mal. Melhor lhe fôra morrer ajoelhando, supplicando misericordia. Ah! acaso sabemos como elle morreu? Por ventura, a dôr refinada até aquelle extremo não será a mais eloquente supplica? Quem o sabe n'este mundo?

VII

Seja, porém! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno a anno, de seculo a seculo. É justo. Amen! amen!

Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mães! Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choças e palacios; dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que floream gladios, aos que julgam a terra e aos que são julgados! Ai dos hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras! ai dos servos e dos irmãos tredos! ai dos que antepõem a amisade á justiça, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em quanto o innocente é atormentado.

Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que não haverá ahi palavra que vos impugne.

Sim! Não ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime. Judas soffre ha dois mil annos, e d'aqui a quatro mil soffrerá ainda, e em quanto o genero humano não terminar a sua peregrinação terrestre, viverá em supplicio recrescente de tormentos inauditos.

VIII

Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado, quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor, apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»

Apiedai-vos d'elle, Senhor!—dirão todos os bemaventurados—que elle, sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o mundo estaria resgatado.

Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes. Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que fazem!»