Quem se entenderia n'este cháos? Quem poderia decidir que o evangelho de Thiago não era de Thiago, e que o evangelho de João era de João? Quem poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as copias falsificadas de João? A coisa não era de si tão luminosa que podessemos aceital-a hoje em dia.

No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questão enleava gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja não prestaria fé ao verdadeiro evangelho. Não achava elle portanto nos escriptos de João, de Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua divindade; com mais forte razão não acharia a mesma prova intrinseca nos escriptos de Moysés, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.

Se eu não debilitei, resumindo-as, as razões com que os catholicos intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida das Escripturas. Passemos á segunda prova que é o testemunho da Egreja.

II

Da auctoridade da Egreja

Diz-nos a Egreja catholica que é preciso crêr o que ella nos ensina como se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos nós peccamos antes de nascer, e que a Virgem, mãe de Christo, nasceu sem peccado—o que se não acha no evangelho—devemos acredital-o como se o evangelho o dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os textos, umas vezes prende-se á letra, outras descobre um entendimento occulto que só ella vê, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a tradição oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova synagoga continúa no tempo e no espaço a immortal cadêa, guardando, diz ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.

A Egreja catholica é mais que a imagem de Jesus Christo: está consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellação, devemos consideral-a sempre como viva incarnação do Verbo eterno. Seria a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella não asseverasse a autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se não recebesse a missão de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade n'este mundo, já a da razão, já a dos livros sagrados, sóme-se absorvida na soberana auctoridade d'ella.

Esta segunda prova do inferno é de natureza analoga á primeira: é mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no; negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja—o que elles qualificariam de idolatria. Não posso abster-me de relatar algumas de suas objecções, as quaes, bem que sejam forçadas sobrenaturalmente com versiculos do Apocalypse ou das Visões de Isaias, nem por isso me parecem menos debeis.

Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; não,—dizem outros—isso é pessimo—; e os terceiros sustentam que não se deve fazer nada, ainda que a inacção pareça aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem actos manifestamente culposos aos olhos da razão, já prohibidos por lei natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso não convence que possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos é que nos guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam, nos pontos em que elles se desavém, em que se calam; emfim, na conjunctura em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. Não affrontemos com os casuistas multidão de problemas onde o nosso partido seria grande; busquemos antes, nas relações da vida civil, um só d'esses factos duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana está indecisa. Vá de exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questão muito pelo alto.

Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro valor, gratuitamente? É, pelo contrario, licito haver parte dos lucros da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, á maneira da esmola, é um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos, e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o emprestimo gratuito é o unico bem consoante á equidade natural, e que a minima usura é roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade do emprestimo como obrigação moral. Tal preceito usurparia á mediania económica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias não arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o não acoroçoasse esperança d'um beneficio adequado ao serviço que presta e aos perigos que corre. Os que nada tem caíriam, por conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente. Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos, multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva, estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O emprestimo a juro é logo geralmente admittido como justo e fertil em toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crédor? Como se hão de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes do crédor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differença entre a qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, ás vezes pequenissimo, casos haverá em que seja pezado; mas, como é legal, pezará com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Será elle até motivo a encarecerem os generos, e redundará em incommodo e vexame. Tal é, quando menos, a opinião de celeberrimos philosophos.