MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito resignada:
Fica perto da cidade
O sepulcro: é no jardim
Do José d'Arimathéa.
Ao aroma do jasmim
Casa-me o aroma da rosa...
É tudo meigo e silente
N'aquelle triste remanso
Onde elle dorme. A corrente,
Que vae regar os pomares,
Tem uns murmurios tão doces
E tão cheios de misterio...
MARTHA
Maria, irmã, se tu fosses
Contaminar o teu corpo?
É prohibido na Lei
Ir a um sepulcro...
MARIA
Decerto...
MARTHA
É um crime.
MARIA
Sim; bem sei.
Mas devo eu conjecturar
Que os negros vermes da terra
Contaminem moradia
Que tanto perfume encerra? As borboletas sómente,
Aereos beijos de amor,
Hão de poisar junto d'elle
Como poisam n'uma flôr,
Indo contar em seguida
Aos espinhos do balseiro
Quanta fragancia divina
Exhala aquelle canteiro.
... Ao passo que eu viverei
Na grande dôr do meu pranto,
Como a aranha silenciosa
Que fez a teia n'um canto.
—No ceu da minha existencia
Pairavam tranquillamente
Dois flócos de nuvem, que era
Como o fumo transparente...
Andavam pairando assim
Despreoccupados os dois,
Para ao sopro d'uma aragem
Se desfazerem depois...
Fumo illusorio que sobe
Mansamente pelo ar
E que se esvae n'um instante
P'ra nunca mais se juntar...