MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido erguido para o olhar da irmã:

Os Dose, que gostam tanto
De dizer mal de Judá.
A Galiléa! Não ha
Para elles outro mundo!
Têem sincera affeição,
Tributam amor profundo
Ao paiz de Salomão!

MARIA desculpando-os:

A sua terra natal...
—Todos dizem que em verdade
É um paiz ideal
A Galilêa.

MARTHA

Quem ha de
Duvidar, se elle inspirou
Os galanteios doirados
D'aquelles apaixonados...
—Como elles, ninguem amou!

Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.

«É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum,
E como o cédro elegante...
É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum...
«São de perfumes e odores
Suas faces purpurinas,
Dois ramalhetes de flores...
E suas mãos dois primores
Das pedrarias mais finas.
«O seu corpo deslumbrante
Do marfim o brilho tem...
—Eu aqui... Elle distante...
Onde está o meu amante,
Filhas de Jerusalem?»

Olhando de fito para a irmã:

Esta idéa é mesmo linda!