Eu vou.

Mas fica, e só os quatro entram para casa.

Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos; apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo.

JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:

Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?
Desegualdade sem razão, medonha!
Uma alma pura, virginal, submissa;
Outra, vertendo em lagrimas peçonha!
—Ah! fatal e profundo sentimento,
Que tens do abismo a attracção e o horror!
És para mim dulcissimo tormento,
E sendo um grande amor... não és amor!
Um desejo voraz, ardente, furia,
Que a força da vontade não arranca!
Tem sonhos de volupia, de luxuria,
Com as palpitações da carne branca!
Transforma o ideal em verdadeiro
E a minha alma timida conduz
A seductor e vago paradeiro,
Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!
Não morrerás? não has de ter um fim,
Ó tenebrosa e infernal tortura, Que pareces viver dentro de mim
A construir a minha sepultura?
—Quem te ordena que leves a maldade
A fazer-me avançar para o impossivel?
Porque segrédas tu que a castidade
Nem sempre pode ser irresistivel
Ás seducções frenéticas do amor?
E porque vens mostrar-me, sensual,
Certa nudez, e em todo o seu fulgor
Um monte de oiro junto d'um punhal?
—Como és infame! Sim! Com violencia
Levas minh'alma fraca aos empurrões.
E, como a Daniel, a Consciencia
Queres deitar á cova dos leões!
—Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!
Hei de salvar minh'alma moribunda,
Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
Escarrar-te no corpo, besta immunda!

E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do interior da casa.

Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e espera que encha.

Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.

Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que se dirige para casa, onde entra a passos lentos.

A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos. Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a porta.

Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida...

Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que esse vulto é Benjamim.

SEGUNDA JORNADA

EM 9 DE NISAN

SEGUNDA JORNADA