E porque não?
Onde possues algemas e mordaças
Para conter as furias imminentes?
Pode acaso fugir-se a uma traição?
Reflecte bem: devemos ser prudentes,
Evitando que Hanan tenha pretexto
Para exercer emfim uma vingança,
Roubando ao Mestre a preciosa vida.

JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:

Não tens portanto uma unica esperança
Em ver surgir a aurora promettida?
—Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto
Do Profeta, que vamos afinal
Assistir ao enorme vendaval,
Que ha de causar a todo o mundo espanto!
Da Lei não ficará nem uma linha,
E as pedras do Templo hão de cahir!
Eu antevejo, amigos, o porvir,
Que de instante a instante se avisinha!
Como cães a ulular, de toda a parte
Hão de saír as abominações!
Entre espadas de fogo e maldições,
Vae tremular um sólido estandarte!
Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus
Ribombará como um trovão gigante,
E o vento ha de levar para distante,
Onde não haja terra, mar, ou ceus,
As ultimas parcellas do monturo
A que chamamos hoje humanidade!
Álerta! vae rugir a tempestade!
—Confia em Deus! Espera no futuro!

Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:

Gamaliel?!

GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.

Eu proprio. E vejo que cheguei
A tempo de lembrar que existe de uma Lei
A rispida crueza, a inquebrantavel força,
E que por mais que a tua exaltação retorça
O positivo, elle ha de emfim prevalecer!
Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder.
—O perigo é enorme.

Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:

Ouvide: Nicodemo,
Um homem de honradez e que respeita em estremo
O vosso Mestre, não me occulta o que se passa
A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça,
Fazendo-se abortar o plano vingador!

TODOS em sobresalto: