Que poderá tornar-se em grande mar vermelho,
Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!

JOÃO

As espadas de Roma, as furias de Tiberio,
Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio!
O povo ha de gritar, raivoso, leonino,
Rasgando a face impura ao despota assassino!

GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:

Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto
No livro da experiencia, amigos, que é de pranto
A minha pobre offerta á causa alevantada!
Vós não podeis brandir a rutilante espada;
Nem elle, todo amor, consentiria nunca
Na transfiguração do verbo em garra adunca.
Parti, pois que é preciso apparecer ao povo,
Mas fugide a que venha um incidente novo
Aguçar ao tiranno o sanguinario intento.
Entrae com desassombro a porta do aposento
Onde finge dormir, silencioso, o crime;
Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime
O seu rancor feroz!

SIMÃO PEDRA tambem resoluto:

Seja o que Deus quizer!

JOÃO

Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher,
Pode esfriar em mim a indignação!

GAMALIEL