Mas como a posição do eixo vae mudando sempre lentamente, chegará um dia em que a differença entre as durações das estações nos dois hemispherios desapparecerá, tornando-se todas eguaes tanto ao norte como ao sul do equador. N’essa epoca a temperatura será muito menos differente nas latitudes dos dois hemispherios, sería até egual, se não fossem as causas locaes, como os ventos, as correntes, a altitude, a proximidade da agua, etc. Depois começará outra vez a apparecer a differença entre as durações das estações, não aquella que já foi designada, porém a inversa, isto é, a primavera e o verão tornar-se-hão maiores no hemispherio austral e menores no hemispherio boreal, exactamente o contrario de hoje. O cyclo completo d’estes movimentos abrange 21000 annos. Ha de pois decorrer esse espaço de tempo a fim de que a differença das estações torne a ser mathematicamente tal qual agora se observa.
Depois d’esta brevissima exposição do fundamento principal da hypothese, comprehender-se-ha facilmente que a temperatura maxima de um hemispherio deverá corresponder ao maior excesso da duração da primavera e do estio sobre a das outras duas estações; e a temperatura minima ao maior excesso da duração do outono e do inverno sobre a da primavera e do estio. Portanto o espaço de tempo decorrido entre o momento da temperatura maxima e o da temperatura minima será egual á metade de 21000 ou 10500 annos. A ultima vez que esta maxima correspondeu ao hemispherio boreal foi em 1248, o que está dizendo que até esse anno a temperatura foi sempre augmentando; começou então a diminuir e continúa e continuará até ao anno de 11748, em que chegará ao seu minimo grau. Mas a epoca anterior correspondente deve ter sido 21000 annos antes de 11748 ou 9252 annos antes de Jesus Christo. Tal sería pois, na opinião de Adhémar, a epoca glaciaria, a epoca do rangifer, bisonte, urso, em fim a epoca dos homens que se serviam das armas e instrumentos de pedra lascada e de osso.
Suppõe-se porém que antecedentemente houvera já uma outra epoca glaciaria, caracterisada pela apparição do rhinoceronte e dos ursos das cavernas. Na Suissa conhecem-se provas da existencia de dois periodos de frio separados por um intervallo, durante o qual o clima se conservou temperado. Ora, segundo a lei de precessão dos equinoxios, essa epoca sería 21000 annos antes ou 30252 annos antes de Christo. E a epoca denominada preglaciaria, quando um clima temperado favoreceu o desenvolvimento do hippopotamo e do elephante antigo e dos primeiros dos homens, conhecidos por vestigios incontestaveis, sería 10500 annos antes ou em 40752 antes de Christo.
A hypothese de Adhémar não explicaria unicamente a alternação dos climas durante a idade quaternaria. Sendo deseguaes as calotes de gelo dos dois hemispherios, pois a do sul aproxima-se do equador muito mais que a do norte, o centro de gravidade da terra deverá deslocar-se para a parte das massas maiores. N’esta deslocação successiva, o centro da terra passará de 10500 em 10500 annos pelo plano do equador, mudando-se de um para outro hemispherio, alterando portanto as condições de equilibrio, e fazendo com que as aguas de uma corram para a outra parte, e formem um diluvio. O hemispherio austral está hoje mais coberto de agua, porque o centro de gravidade se deslocou para esta parte, em razão de ser maior a calote dos gelos austraes que a dos boreaes. Quando os gelos começarem a ser mais da parte do norte, o centro da gravidade mudar-se-ha para este hemispherio, as aguas deixarão descobertos novos continentes austraes e alagarão os boreaes, cobrindo-os de novos depositos similhantes aos do diluvio.
A maior quantidade de gelos do hemispherio austral e o avizinharem-se estes mais do equador que no hemispherio boreal provam a inferioridade da temperatura do primeiro relativamente ao segundo. Nas viagens antarcticas os navegantes experimentam, mais cedo e em maior grau que nas viagens arcticas, as dificuldades da navegação, resultantes de frio e dos gelos. Eis o motivo porque elles se têem aproximado mais do polo do norte, e porque são hoje muito mais conhecidas as regiões hyperboreas que as do outro hemispherio em latitudes correspondentes.
Basta lançar a vista a um mappa-mundi ou a uma esphera para vêr a extensão das terras no hemispherio boreal proporcionalmente muito maior. Mas esta desproporção tornar-se-ha mais expressiva e concludente, em favor da hypothese que attribue á mudança do centro da terra para o hemispherio austral a deslocação da agua para esse mesmo hemispherio, se a avaliarmos com exactidão por meio da tabella seguinte, que representa numericamente a diminuição successiva e gradual das terras do norte para o sul, medindo em cada parallelo a razão em que está a parte occupada pela terra com aquella que as aguas cobrem. Representando cada parallelo pela unidade, teremos uma fracção para representar a extensão da terra e outra para exprimir a extensão da agua.
| Latitude | Agua | Terra |
|---|---|---|
| 60° ao norte | 0,363 | 0,647 |
| 50° ” | 0,407 | 0,593 |
| 40° ” | 0,527 | 0,473 |
| 30° ” | 0,536 | 0,464 |
| 20° ” | 0,677 | 0,323 |
| 10° ” | 0,710 | 0,290 |
| 0° ” | 0,771 | 0,229 |
| 10° ao sul | 0,786 | 0,214 |
| 20° ” | 0,777 | 0,223 |
| 30° ” | 0,791 | 0,209 |
| 40° ” | 0,951 | 0,049 |
| 50° ” | 0,972 | 0,028 |
| 60° ” | 1,000 | 0,000 |
Este augmento tão regular, tão graduado da agua do norte para o sul, dispõe naturalmente o espirito em favor da hypothese de Adhémar, limitando-se a comparação ás regiões que em ambos os hemispherios não ultrapassam a latitude de 60°. Mas alguns graus mais além no hemispherio austral as descobertas da terra Victoria, da terra Enderby, do vulcão Erebus contrariam em parte a pretendida lei, e parece darem antes razão a Lyell, que, exactamente ao contrario de Adhémar, attribuiu o grande frio das altas latitudes meridionaes á vasta extensão e á grande altura do continente que suppoz existir nas regiões antarcticas. Convém saber que, sendo maior a irradiação do calor na terra do que na agua, a existencia de um alto e vasto continente no circulo polar do sul, teria por effeito natural a diminuição da temperatura nos mares proximos. E assim as differenças observadas explicar-se-hiam até certo ponto por essa causa. Mas em quanto se não demonstrar positivamente o que não passa apenas de mera supposição, não será por certo com uma hypothese que se queira destruir a possibilidade de outra.
Quanto á supposição de que a altura e extensão dos gelos teem alternadamente influido, e assim continuarão no futuro, ora n’uma ora n’outra metade do globo, ora cobrindo ora descobrindo as terras com as aguas dos mares, fazendo um diluvio de 21000 em 21000 annos, cousa é tão possivel como indemonstravel no estado actual de sciencia. Que o gelo accumulado para a parte de um dos polos desloque para ahi o centro de gravidade da terra, ninguem o contestará. Chegou até o sr. Croll a calcular que a diminuição de 470 pés na espessura dos gelos antarcticos elevaria no polo do norte a agua do mar á altura de 26 pés e 5 pollegadas, e á altura de 25 pés na latitude de Glasgow que é de 55° e 55′. Se porém a diminuição fosse maior, se fosse, por exemplo de 1 milha, a elevação tornar-se-hia de 280 pés. Assim poderá adoptar a hypothese quem vir nos phenomenos da idade quaternaria e sobre tudo nas dunas e fosseis marinhos em logares actualmente muito superiores ao nivel do mar, e nas grandes florestas submergidas, factos menos explicaveis por outras causas geologicas.
Se, como Adhémar assevera, a temperatura do nosso hemispherio diminue desde o anno de 1248, alguns effeitos se hão de por certo observar de tal diminuição. O auctor cita os seguintes: 1.º A grande cupola de gelo do hemispherio austral tem diminuido depois das viagens do capitão Cook.—2.º As geleiras da Groelandia e da Suissa tem avançado para o Meio-dia.—3.º Têem baixado tambem do norte para o sul os limites da cultura da vinha.