No congresso de Bruxellas de 1872 os srs. Dupont e Mortillet admittiram, por mais natural, a sub-divisão da idade da pedra em tres epocas principaes que o primeiro caracterisou pelas faunas respectivas, e o segundo pelos vestigios da industria humana. Já anteriormente em Hespanha o sr. D. João Vilanova propozera uma classificação similhante, dividindo a idade da pedra em quatro epocas, das quaes chamou á primeira archeolithica ou dos vestigios encontrados nos terrenos terciarios; á segunda paleolithica ou dos instrumentos de pedra lascada dos terrenos quaternarios; á terceira mesolithica ou das facas ou do rangifer; á quarta finalmente neolithica ou da pedra polida[26].

Pondo de parte a primeira, por incerta e duvidosa, as outras tres epocas do sr. Vilanova concordam exactamente com as dos srs. Dupont e Mortillet. Com as denominações propostas pelo sr. Dupont e com os caracteres indicados pelo sr. Mortillet, será a seguinte a

CLASSIFICAÇÃO DA IDADE DA PEDRA

EpocasCaracteres zoologicosCaracteres industriaes
PaleolithicaMammouth e outros animaes desapparecidosInstrumentos de pedra lascada
MesolithicaRangifer e outros animaes emigradosInstrumentos de pedra lascada e de osso
NeolithicaAnimaes domesticos ainda hoje companheiros do homemInstrumentos de pedra polida

Esta classificação, ainda que pareça conforme aos factos até hoje observados na França, Belgica e alguns outros paizes, não póde ter applicação em todas as regiões da Europa. A successão dos tres grupos zoologicos é um facto geral, pois que, em correspondencia a cada grupo, se observam geraes vestigios de mudanças profundas nos climas e nas outras circumstancias da geographia physica. Nem seriam possiveis as variações da fauna sem outras variações correlativas nos meios que os animaes habitassem. Mas os caracteres industriaes não estão da mesma sorte e unicamente sujeitos á influencia invariavel e fatal das leis physicas. A maior ou menor disposição das raças humanas para a perfectibilidade, as emigrações dos povos, os commettimentos guerreiros, as emprezas maritimas e outras circumstancias accidentaes poriam muitas vezes em discordancia os caracteres deduzidos da fauna com os dos instrumentos da industria. Assim como, em quanto alguns dos povos menos civilisados percorrem já a epoca do ferro, e outros estacionam ainda na idade da pedra, assim tambem não podia em toda a parte a cada grupo zoologico ou a cada especie de clima corresponder a mesma phase industrial. Suppondo que o synchronismo declarado na classificação existiria em partes da França e da Belgica, é claro que não poderia ser geral em toda a Europa.

Na Peninsula não têem apparecido instrumentos de pedra lascada e de osso em tal quantidade que obriguem a subdividir a idade da pedra em mais de duas epocas. Além de que, para caracterisar a epoca mesolithica tambem nos faltam os animaes proprios, porque nem o rangifer nem a hyena spelœa, nem algumas outras das especies contemporaneas habitaram para áquem dos Pyreneus. Parece haver, em Hespanha e Portugal, entre os silex lascados de San Isidro e os objectos de pedra polida, uma grande lacuna ou interpolação, que as explorações até hoje emprehendidas não poderam ainda preencher. Por isso, a classificação do sr. Vilanova foi notavelmente alterada pelo sr. F. M. Tubino que dividiu a idade da pedra sómente em duas epocas, a paleolithica e a neolithica, e subdividiu esta ultima em dois periodos o mesolithico e o do cobre[27]. Pela nossa parte, prescindiremos d’esta subdivisão, porque o periodo mesolithico, sendo caracterisado pela pedra lascada, não póde pertencer á epoca da pedra polida, e o do cobre, por motivo analogo, sómente na idade dos metaes se ha de comprehender. Conservaremos pois a divisão primitiva da idade da pedra nas duas epocas da pedra lascada e da pedra polida, como ainda hoje fazem Lubbock e outros archeologos, attribuindo á primeira o rangifer e os animaes emigrados.

Da epoca paleolithica ou da pedra lascada e da epoca neolithica ou da pedra polida têem apparecido na Peninsula não sómente vestigios da industria humana, mas tambem restos dos animaes caracteristicos. Porém da epoca anterior, correspondente aos terrenos terciarios, que o sr. Vilanova chama archeolithica não se tem encontrado nada até hoje em Hespanha. Em Portugal o sr. Carlos Ribeiro colligiu em camadas terciarias e quaternarias das provincias da Extremadura e da Beira, e particularmente das bacias do Tejo e Sado, silex e quartzites lascadas nas quaes lhe pareceu evidente a acção intencional do homem. E na Memoria que em 1871 apresentou á Academia das sciencias de Lisboa fez estampar cento e trinta de taes objectos[29].

Examinada esta collecção em 1872 no congresso de Bruxellas, pareceu em principio ao sr. abbade Bourgeois, apaixonado defensor do homem terciario, não ter vestigios da industria humana nenhum dos objectos colligidos. Mudou porém depois de opinião, confessando com o sr. Franks, director do Museu britannico, haver em alguns provas evidentes do trabalho do homem[30]. Por outra parte, o mesmo sr. Franks, examinando trinta e duas pedras, que o sr. abbade Bourgeois apresentára ao congresso, como vestigios da industria humana, encontradas em terras terciarias de Thenay, n’uma só de taes pedras viu signaes positivos da acção intencional do homem. Nomeou-se para examinar as de Portugal uma commissão, entre cujos vogaes não chegou a haver maioria que declarasse attribuiveis á industria humana a maior parte d’aquelles objectos[31].

Bastarão estes factos, occorridos no congresso de Bruxellas, para mostrar a incerteza das provas, actualmente conhecidas da existencia do homem terciario. Na commissão geologica de Portugal ha centenares de pedras, colligidas pelos srs. Carlos Ribeiro e Delgado. Talvez que uma escolha racional apurasse entre ellas algumas em que parecesse menos duvidoso o trabalho humano, nas quaes, comparadas ás congeneres da idade quaternaria, melhor se reconheceria a origem natural ou artificial. Foi isto mesmo que no Museu de Saint-Germain fez o sr. Mortillet, escolhendo algumas das pedras que o abbade Bourgeois para ali enviara, como instrumentos fabricados pelo homem terciario, e expondo-as juntamente com outras do valle do Somme ou de outras estações quaternarias, para os observadores poderem comparar e tirar da comparação as illações que lhes parecesse.

Algumas das pedras da commissão geologica taes como as que as figuras 1, 2 e 3 representam não têem similhança com as formas typicas de Saint-Acheul, Hoxne, San Isidro, etc. Outras que vimos na collecção talvez, sem grande esforço, se reduzam no typo dos denominados raspadores[32].