São do mesmo typo os machados de diorite e de jade, descobertos em Argecilla e os que appareceram na caverna de Albuñol, Andaluzia[49]. Aqui porém encontraram-se dois, um inteiro e outro partido, mui differentes dos typos communs em Hespanha e Portugal. É possivel até que não sejam machados, mas outros instrumentos de pedra, conforme a opinião do sr. Gongora, que assim os denomina.

Alguns instrumentos se têem colligido em Portugal com a fórma curva, quasi de crescente ([fig. 23]). Na Commissão geologica conservam-se quatro d’estes instrumentos curvos de calcareo branco e molle, achados um em Mont’Abrão, e os outros tres nas immediações de Mafra, e tambem um fragmento egualmente de calcareo que parece de outro similhante objecto, fragmento encontrado na Casa da Moura, uma das grutas de Cesareda. Outro muito curvo, porém de diorite e de maiores dimensões, apparecido em Thomar, pertence hoje ás collecções do museu da Escola Polytechnica. É notavel esta fórma. Seriam picaretas?[50] Parece que os de Mafra, por serem de calcareo sem dureza, e portanto improprios para se empregarem como armas ou como instrumentos, teriam antes servido de insignias. Muitas facas de silex são tambem tão delgadas que talvez não tivessem outro fim. As que appareceram no concelho de Ancião partiram-se logo na occasião em que foram encontradas, por effeito dos choques que soffreram. O apparecerem algumas com objectos de bronze persuade até certo ponto a opinião, segundo a qual alguns d’estes objectos prehistoricos passariam de uma a outra idade, não com os usos que em principio tiveram, porém como emblemas, como symbolos sagrados, por trazerem á lembrança uma grande antiguidade ou os primordios da especie humana.

Não ha motivos para suppôr alguns dos objectos de osso, encontrados em Portugal nas estações prehistoricas, anteriores á epoca neolithica. Na casa da Moura, uma das cavernas da Cesareda, appareceram varios puncções, uma grande faca partida e um cabo de osso. A faca tem n’uma das faces uma excavação á maneira de meia cana, que é parte do canal medullar. O cabo não passa de um fragmento de um osso grande, cuja fórma natural aproveitaram sem o afeiçoarem. A superficie está desgastada pelo attrito da mão. Parece ter servido para encabar algum machado ou outro instrumento de pedra, da mesma sorte que empregavam para este mesmo fim as pontas de veado. E na Casa da Moura se encontrou tambem um cabo d’esta ultima especie ([fig. 24]). Similhantes ao outro de osso appareceram dois na Fonte da Ruptura em Setubal e um na Azambuja, perto da Penha de França. Todos se conservam no museu da Escola Polytechnica.

Na Fonte da Ruptura appareceram ossos transformados em puncções, algum ou alguns dos quaes, pelo grande comprimento, parecem de ave ribeirinha.

Fig. 24.

CABO DE OSSO DA CASA DA MOURA.

Estes instrumentos, designados pelo nome commum de puncções, ([fig. 25 e 26]) poderiam servir de pontas de frechas ou de dardos e para outros fins differentes. Apparecem com frequencia nas estações prehistoricas e todos os archeologos os conhecem. Pelo contrario deveria ter um fim certo e determinado um instrumento tambem de osso, apparecido na Fonte da Ruptura, em Setubal, e que não consta haver-se encontrado n’outras partes. É um osso macisso de fórma cylindrica, adelgaçado em metade do seu comprimento para se introduzir n’outro osso vasado, cuja capacidade interior corresponde áquella parte menos grossa do cylindro macisso.

O sr. Pereira da Costa julga que este instrumento serviria para abrir furos em pelles. Collocadas as pelles sobre o orificio superior do cylindro vasado, facilmente se atravessariam pela parte mais delgada do cylindro macisso. Sería este ou outro o uso de tão singular objecto? Ninguem o saberá dizer hoje com certeza. Acharam-se na Fonte da Ruptura dois d’estes furadores. Chame-se-lhes assim interinamente.