No museu da Escola Polytechnica ha uma especie de baculo ([fig. 33]), tambem de schisto negro e com ornatos parecidos aos das placas ([fig. 31]). Appareceu na Sepultura de Martim Affonso juntamente com facas de silex, como as da [fig. 16 e 17], e com a ponta de lança ([fig. 15].) Sería talvez insignia de grau superior, pois não se sabe de outra similhante[53].

Convém notar que na parte inferior ha um pequeno espaço liso, por onde talvez se introduzisse n’algum cabo ou haste de pau. É extremamente comparavel esta insignia áquellas que denominaram bastões de commando, feitas de pau de rangifer, e muito communs nas estações prehistoricas de outros paizes. Dir-se-hia que, não habitando o rangifer na Peninsula, os homens se veriam aqui obrigados a substituir aquella materia pelo schisto. Mas a coexistencia das placas, baculos de schisto e dolmens está demonstrando ter sido o uso d’estes objectos muito posterior á epoca do rangifer. Quanto aos ornatos triangulares, foram muito communs na epoca da pedra polida. A ornamentação com linhas curvas representa já um progresso da arte, posterior ao emprego exclusivo da linha recta. Mas advirta-se que a superficie dos triangulos, coberta de traços que se cruzam, formando pequenos quadrados, não é nada commum na epoca neolithica, e póde até considerar-se caracteristica dos objectos de schisto achados em Portugal. Na Scandinavia, como se vê da obra de Nilsson, têem apparecido enxadas de ponta de veado, com figuras de animaes (cervos?) esboçadas, e junto d’estas figuras os triangulos cobertos de traços cruzados como os das nossas placas e baculos. Os dolmens da Scandinavia são tambem aquelles que mais se assimilham aos de Portugal. Adiante veremos as conclusões que se hão de tirar d’estes factos importantes.

Fig. 34

MACHADINHA DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.

Que as placas de schisto não serviriam de certo para os fins a que se applicaram os machados de pedra claramente se prova com o achado de um objecto similhante, mas de calcareo que a [fig. 34] representa em tamanho natural. Tem a fórma de um coração, com quanto os orificios e os entalhos da base mostrem com certeza que deveria ligar-se a um cabo ou haste de pau para representar o antigo e talvez já obsoleto machado de pedra. A molleza do calcareo, provando que este objecto não poderia servir para qualquer trabalho em que tivesse de se empregar um machado, confirma a hypothese de que estas e outras reliquias prehistoricas não seriam mais que emblemas ou insignias para as ceremonias do culto ou para quaesquer outras, e que se enterrariam com aquelles a quem tivessem pertencido. Assim temos já as facas de silex, as picaretas com fórma de crescente, as machadinhas de schisto e de calcareo, a que é applicavel a nossa hypothese, e que, sem ella, não teriam razão de ser, nem outra explicação possivel.

Fig. 35

FRAGMENTO DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.

Achou-se tambem na Cova da Estria um fragmento cylindroide do mesmo calcareo esbranquiçado e sem dureza com duas riscas transversaes n’uma das extremidades e tres riscas obliquas do lado da outra extremidade ([fig. 35]). Impossivel parece apresentar no estado actual da prehistoria uma opinião certa ácerca do fim para que tal objecto serviria na epoca dos dolmens. Sería um contador ou uma insignia de graduação determinada?