FRAGMENTO DE CERAMICA DE ALBUÑOL.
Outros achados feitos na caverna de Albuñol da provincia da Andaluzia dão-nos mais alguma idéa dos costumes e do estado social dos homens que habitavam a Peninsula n’esses tempos remotos. A caverna, conhecida pelo nome de Cueva de los murcielagos, tinha sido explorada em 1831 com o fim de extrahir d’ella o guano formado pelos excrementos dos animaes que lhe deram o nome. Não se revolveu o solo n’esta primeira exploração; portanto ficaram intactos os objectos que ali estavam sepultados. Em 1857 constituiu-se uma companhia para explorar os mineraes de chumbo que suppunham haver na caverna. Logo no principio das excavações appareceram á entrada tres esqueletos, um dos quaes cingido com diadema singelo de ouro puro ([fig. 42]).
Continuando a excavação pelo interior da caverna, acharam os mineiros doze cadaveres, postos em semi-circulo á roda de um esqueleto de mulher muito bem conservado, vestido com uma tunica de pelle, apertada com corrêas, e adornado com um collar feito de anneis de esparto, de um dos quaes pendia um dente de javali lavrado na ponta, e dos outros conchas furadas.
Fig. 42
DIADEMA DE OURO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.
O esqueleto a que pertencia o diadema de ouro tinha uma veste curta de tecido fino de esparto, ([fig. 43]). Os vestidos dos outros eram tambem de esparto, porém de tecido mais grosseiro, ([fig. 44]). Alguns tinham gorros de tecido similhante ([fig. 45]), e calçado tambem de esparto, á maneira de alpercatas. Cada um dos tres esqueletos tinha uma bolsa de esparto, cujo tamanho variava entre seis e quinze pollegadas ([fig. 46]).
Em fim, na parte mais remota do interior da caverna acharam os mineiros outros cincoenta esqueletos tambem vestidos e calçados de esparto. Juntamente com as ossadas havia facas e machados de pedra, lanças e frechas com pontas de silex pegadas a toscos paus com um cimento fortissimo; vasos de barro, e colhéres de madeira trabalhadas á pedra e ao fogo. O sr. D. Manuel de Gongora, annos depois, encontrou ainda o diadema de ouro e outros objectos, que algumas pessoas curiosas guardavam, e poude mandal-os desenhar e gravar para lhes dar publicidade na sua interessante Memoria[55].
Serão porém authenthicos os objectos que dizem achados em Albuñol? E, sendo-o, não se deverá antes attribuil-os a uma epoca muito menos antiga, de sorte que podessem chegar aos nossos dias tão bem conservados? Que o sr. Gongora viu os objectos é indubitavel. Responde pela sua veracidade a Academia Real de Historia que deu o parecer favoravel á impressão da Memoria. Que abusassem da boa fé do explorador e da sua paixão pela archeologia não é crivel; uma falsificação denunciar-se-hia logo por qualquer incompatibilidade entre os objectos encontrados. Ora todos elles revelam claramente a epoca neolithica. Entre tantos objectos achados não houve um só de bronze ou de ferro. Appareceu, é verdade, o diadema de ouro, mas ha toda a razão para suppôr que este metal sería fabricado anteriormente ao cobre, por se apresentar no estado nativo e não exigir portanto a invenção de processos especiaes de extracção. Demais andam conformes os auctores antigos em descrever as areias dos rios da Peninsula como abundantes de palhetas de ouro.