«Acharam-se esculpturas similhantes na Irlanda. Além d’isso n’este paiz, nos grandes tumulos, proximos de Boyne, vêem-se os vestigios de uma ornamentação mais completa. Por exemplo, a grande pedra á entrada de New-Grange está coberta de espiraes duplas, e as pedras da camara central estão tambem ornadas de circulos, espiraes e outros desenhos. Um dos mais notaveis é aquelle que parece representar uma folha de feto, á similhança de outros da Bretanha e do supposto templo de Hagar Kem, na ilha de Malta...»

«Todas estas esculpturas antigas da Gran-Bretanha, menos a folha de feto, são apenas simples figuras geometricas. Acham-se as mesmas figuras em Bretanha; aqui porém são muitas vezes acompanhadas da representação de machados de pedra com ou sem cabo»[127].

Na provincia das Asturias, em Cangas de Onis, subjacente a uma ermida, ha um dolmen, cuja primeira pedra lateral direita, na face interior, contém gravados signaes que fazem lembrar as pinturas da pelle de certos selvagens[128]. Esta mesma analogia se notara já com relação ás esculpturas de outros dolmens, taes como aquelle do districto de Finisterre na França, descripto recentemente pelo sr. Chatellier[129].

Os mais notaveis e os menos antigos d’estes monumentos são as esculpturas das rochas de Kivik. Representam, na opinião de Nilsson, um combate, depois do qual os vencedores offerecem sacrificios a Baal, cuja pyramide se ergue entre dois grandes machados de bronze[130]. Por esta circumstancia se determina com exactidão a epoca em que foram abertas as esculpturas de Kivik.

N’outras esculpturas de rochas da Norwega predominam as representações de barcos, similhantes áquelles que adornam os cabos de navalhas de bronze achadas na Dinamarca[131]. Nos mesmos monumentos da Norwega vêem-se grupos de pontos á maneira de constellações; o que torna estas esculpturas comparaveis ás da rocha de Carnés de Vimianzo na Galiza[132]. A analogia d’estes ultimos signaes com as constellações é ainda maior, porque os pequenos circulos que representam as estrellas estão involvidos em figuras lineares, formadas por circulos concentricos ou por outras curvas. Alguns d’aquelles circulos concentricos fazem lembrar rodas de carros. Na mesma provincia se conhecem outros signaes similhantes na rocha de Ginzo em Limia[133]. E n’um tumulo, descoberto em 1874 a dois kilometros da aldêa de Melon, termo judicial de Rivadabia, encontraram-se pedras interiores cobertas de signaes gravados e coloridos com tinta roxa e negra[134].

Poderia duvidar-se do facto, e suppõr-se que os observadores teriam sido illudidos por algum oxydo de ferro que tingisse de roxo e negro as pedras do tumulo. Mas o sr. Gongora, sem saber d’este, cita outros casos similhantes. Na Andaluzia observou muitos signaes pintados com tinta rubra bituminosa em certos nichos abertos artificialmente na rocha, na serra de Quintana, a uma legua da villa de Fuencaliente. Na distancia de um quarto de legua d’este sitio, n’um logar chamado Batanera, encontrou o mesmo observador outros signaes similhantes pintados com tinta vermelha na face de um penhasco artificialmente cortado. Apesar da rudeza dos traços, reconhece-se n’alguns d’esses signaes a representação do sol, da lua, da figura humana, de arvores, de béstas, do coração e finalmente de barcos[135]. Por estes ultimos e pela fórma linear dos traços, os hieroglyphos da Andaluzia relacionam-se naturalmente com os das rochas da Norwega, já citados, e portanto com as esculpturas de alguns instrumentos de bronze da Dinamarca, tambem já mencionados.

Mas, cousa notavel! explorações recentes têem patenteado no Novo Mexico outros vestigios analogos, que fazem presuppôr a existencia de uma antiga civilisação, procedente da Asia Menor, e que nas epocas prehistoricas se dilataria por muitas das regiões litoraes da Europa e da America: «De taes inscripções, ornamentações e mais esculpturas apparecem tambem muitos specimens por varias partes da America. E é muito para notar o que a este respeito se lê no Boletim official dos Estados-Unidos:—of geological and geographic survey of territories (março 1876), onde, se encontram curiosas noticias das explorações feitas no Novo-Mexico, especialmente pelas proximidades do Colorado; e os desenhos de antigas ruinas de cliff-houses, que fazem lembrar as habitações kushitas das montanhas da Georgia. Tambem ali se podem vêr os debuxos de hieroglyphos, ou inscripções gravadas em varias pedras e em nichos (como se encontram pela Asia-menor), d’essas habitações das rochas; que se assimilham a outras inscripções achadas n’algumas cavernas da Andaluzia»[136].

Estes factos, sendo como dizem, estabelecem relações de similhança, talvez de communidade de origem, entre os povos da Asia Menor e aquelles que, na epoca do cobre ou do bronze, povoaram algumas partes da America septemtrional, e das peninsulas Iberica e Scandinava. Concernentemente aos iberos, tinha-se já notado certas analogias da linguagem entre os vasconços, os alghonquinos e os georgiamos que faziam presuppôr a mesma origem commum. As menos antigas de taes esculpturas, que vem a ser as de Kivik, poderão attribuir-se aos phenicios. Mas estes monumentos são muito superiores a todos os outros pela perfeição do desenho. Pertencem incontestavelmente a uma civilisação tambem muito superior. Os outros parece corresponderem antes a uma civilisação mais rude, de uma epoca anterior, talvez da epoca do cobre e dos dolmens menos imperfeitos da peninsula Iberica.

Os factos ultimamente referidos levam-nos a conjecturar que, nas epocas prehistoricas, duas civilisações differentes se succederam nas mesmas regiões da Peninsula, ambas antinomicas com a civilisação pelasgica, ambas trazidas por navegadores do Atlantico: a da pedra polida que se dilatou pelas costas occidentaes da Europa, deixando até na Scandinavia vestigios similhantes áquelles que se observam na peninsula Iberica. A segunda sería a dos menhires e das pedras balouçantes e talvez do bronze.

Á primeira d’estas civilisações attribuiremos os dolmens mais rudes de Portugal, as insignias de schisto os fragmentos de osso similhantemente lavrados; á segunda os dolmens mais perfeitos como são os da Andaluzia e de Cangas de Onis; as pedras esculpidas da Galiza e da Andaluzia; os menhires e os trilithos da Galiza; o tumulo de Antequera; a galeria de Castilleja de Gusman, e por ventura outras que dizem existir em pequenas distancias de Guimarães; os menhires e as pedras balouçantes d’estas mesmas ou de outras regiões; e finalmente objectos prehistoricos de bronze, achados nas regiões occidentaes da peninsula Iberica.