Fig. 67
FACA E SERROTE DA FONTE DA RUPTURA.
Seria porventura contemporanea a estação prehistorica da Fonte da Ruptura de Setubal, onde appareceram uma faca e um serrote que se conservam no Museu da Escola Polytechnica. Porém estão de tal sorte incrustados que é impossivel dizer se serão de cobre ou de bronze. Advirta-se porém que em certas estações ficaram sotopostos os vestigios de varias epocas, por terem sido habitadas successivamente por muitas gerações e talvez até por differentes raças. E quando no acto da exploração se não registram cuidadosamente todos os indicios, todas as relações de posição dos objectos entre si e com os materiaes integrantes do deposito, torna-se depois impossivel descobrir a verdade. A Memoria do sr. Delgado offerece-nos todos esses esclarecimentos ácerca das cavernas de Cesareda, mas relativamente á Fonte da Ruptura ignoram-se as circumstancias da exploração e da localidade.
Na Bibliotheca de Evora guardam-se seis ou sete espadas de cobre, achadas em varios sitios da diocese de Beja por D. fr. Manuel do Cenaculo. Fundidores de Evora affirmam terem fundido outras similhantes, o que prova não serem raras nas terras transtaganas. Julgou-as o descobridor feitas de bronze, porém com os objectos de cobre é que ellas têem mais analogia nas suas propriedades physicas ([fig. 68, 69 e 70]).
Estas espadas não têem gumes; serviam portanto para ferir de ponta. Outra circumstancia notavel é serem inteiriças, isto é, cada uma d’ellas formada de uma só peça, e sem articulação dos punhos e copos com a folha, quando as armas d’este genero, já durante a epoca de bronze, eram geralmente articuladas. Esta mesma circumstancia se observa n’outras espadas ou punhaes de cobre ou de bronze, achados no Alemtejo, os quaes são tambem inteiriços ou formados de uma só folha metallica, afeiçoada á força de trabalho com instrumentos cortantes e contundentes ([fig. 71]). Porém outros objectos da mesma epoca foram fundidos. Têem-se encontrado na Irlanda e na Sardenha alguns dos moldes que serviram para este fim.
O sr. D. José Villa-amil y Castro descreve um punhal de bronze, achado na Galiza, de mui differente feitio, e muito mais complicado[155]. A folha não é lisa, mas coberta de riscas muito finas, unidas e parallelas entre si e aos bordos, cuja direcção recta ou curva approximadamente seguem. O punho tem a fórma d’aquelles que chamam de antennas. Mas o que ha mais notavel n’esta arma de bronze é ter o punho furado para entrar n’elle a espiga da folha. Não ha vestigios de ter sido repregada ou fixada por virola ou por outro meio. Pelo contrario a espiga entra no punho e sahe muito á larga, e conserva signaes do attrito que soffreria n’estes movimentos. O sr. Villa-amil suppõe que esta arma curiosa serviria aos sacerdotes nos sacrificios, e que o mesmo individuo poderia ferir differentes victimas com o mesmo punho, substituindo a folha para cada victima. Mas o mais que se póde concluir é que n’este e n’outros similhantes punhaes se substituiria uma folha por outra, quando a primeira estivesse gasta, o que em pouco tempo aconteceria, em razão da pouca dureza do bronze ([fig. 72]).
Fig. 69
Fig. 70
Fig. 68