[194] Sallust. Bell. Jugurth. in princip. Ácerca dos talayots e das navêtas ou casas com a fórma de barcos ás avessas, da ilha de Menorca, veja-se o artigo do sr. Fernandez Duro, no jornal La Academia, n.º 12, que deu motivo a uma carta do auctor, publicada no mesmo jornal, tom. II, n.º 10.
[195] Steur, op. cit., tom. II, pag. 118. Rougemont, L’âge de bronze, pag. 286.
CAPITULO X
ORIGENS ETHNICAS
(CONTINUAÇÃO)
Se os vasconços descenderão dos beréberes.—Insufficencia das provas allegadas.—Hypotheses da unidade e da pluralidade iberica.—Razões favoraveis a esta ultima.—A philologia e a historia.—A Iberia do Caucaso comparada com a peninsula Iberica.—Os iberos e os povos com quem estavam relacionados.—Difficuldade de determinar os antigos povos peninsulares.—Asserções vagas dos auctores.—Necessidade de resolver o problema por methodos novos.—Até que ponto as invasões historicas esclarecem as prehistoricas.—O Mediterraneo e o Atlantico, vias principaes por onde vieram as civilisações á Peninsula.—Relacionam-se estas vias com as duas correntes das emigrações asiaticas.—A distribuição geographica dos dolmens peninsulares caracterisa uma das civilisações, vindas pelo Atlantico.—Os monumentos pelasgicos caracterisam outra, vinda pelo Mediterraneo.—Antinomia d’estas duas civilisações.—Outras antinomias entre o occidente e o oriente já nos tempos historicos.—As mais antigas das minas de cobre.—Analogias entre os povos antigos da Iberia e os da America.—A civilisação da epoca do cobre.—Os ciganos e os antigos fundidores do cobre e do bronze.
Broca e outros dos modernos propendem, já o dissemos, para classificar os vasconços entre os representantes actuaes da raça de Cro-Magnon, que, nos tempos prehistoricos povoara o sudoeste da França, a peninsula Iberica e o norte da Africa. N’esta hypothese os vasconços seriam pois os ultimos restos dos antigos beréberes, que em epocas remotas passariam da Africa á Europa. A dolichocephalia dos craneos dos antigos e modernos habitantes das provincias vascongadas é o unico facto até hoje conhecido e allegado em favor de tal idêa. Ora a insufficiencia d’esta prova demonstra-se claramente, porque, se os vasconços, por serem dolichocephalos, descendessem dos antigos beréberes ou da raça de Cro-Magnon, seguir-se-hia que todos e quaesquer craneos dolichocephalos pertenceriam á mesma raça: o que seria absurdo. Por outra parte sabe-se hoje que os vasconços francezes são brachycephalos. Por consequencia tão licito parecerá suppôr que os vasconços, primitivamente dolichocephalos, se tornariam, em parte, brachycephalos por effeito dos cruzamentos, como affirmar a inversa, isto é, que os vasconços primitivos teriam sido brachycephalos, e que, por influencia de raças estranhas, se tornariam depois, na região mais sujeita a essas influencias, dolichocephalos[196]. A esta consideração accresce outra não menos ponderosa, e vem a ser que a similhança da lingua vasconça é com idiomas asiaticos e americanos e não com os da Africa septemtrional.
A opinião mais geralmente seguida é ser o euskara a lingua ou antes um dos idiomas dos antigos iberos, que se conservaria entre os vasconços pela resistencia maior que estes povos offereceram á dominação romana, e por serem aquelles em quem menos sensivel se tornou a sua influencia modificadora[197].
Tomando por fundamento as provaveis analogias entre os modernos vasconços e os antigos iberos, pretendeu Guilherme de Humboldt reduzir ao euskara de hoje as designações locativas das regiões da Peninsula que suppunha haverem sido habitadas por estes povos. Este systema, segundo o qual os antigos iberos constituiriam um povo unico e com uma só lingua, teve numerosos sectarios durante muitos annos. O iberismo oppunha-se ao celticismo, pois affirmava que na Peninsula, depois da invasão dos celtas, prevalecera a lingua e o caracter iberico.
Mas recentemente Charnock, Van-Eys e outros têem provado o muito que Humboldt se afastara da verdade nas suas interpretações[198]. Em vista dos interessantes resultados da critica moderna, a hypothese da unidade cede o passo á hypothese da pluralidade dos povos ibericos. Os resultados obtidos pelos philologos estão concordes com as indicações da historia. Com effeito, escriptores de todas as epocas descrevem-nos os iberos, os habitantes das varias regiões da Iberia, com costumes, nomes, idiomas e alphabetos differentes[199]. As tradições restantes representam-os divididos em tribus, sem grandes relações entre si, ao que obstava a diversidade de sangue e de linguagem. Quando os celtas invadiram a Peninsula, a maior parte d’essas tribus não chegaram a confederar-se contra o inimigo commum. Algumas até se alliaram com elle contra os povos visinhos; outras permaneceram solitarias e impassiveis no meio da conflagração geral.
Apezar do influxo de sangue estranho, já de celtas, já de phenicios, já de carthaginezes nos povos peninsulares, os romanos encontram tamanhas difficuldades para subjugar a Iberia, como para unifical-a sob o imperio das mesmas leis. Ora vencedores, ora vencidos, luctam por espaço de dois seculos, e, sómente Julio Cesar consegue em fim fazer aceitar as leis romanas e o mesmo governo aos povos subjugados.
Durante quatro seculos mantem-se a união da Peninsula pela força das armas, e mais ainda pelo commum interesse dos seus habitantes em conservar a civilisação que Roma lhes impozera e ao mundo antigo. Mas, depois da destruição do imperio, rotos os laços que estreitavam os povos, renovam-se as sub-divisões da Hespanha em pequenos estados, differentes uns dos outros pelas religiões, leis e costumes. Mais tarde, estabelecida a unidade religiosa, o elemento monarchico chega a ligar por vezes n’um só todo as varias partes desaggregadas. Mas a esta força oppõem-se sempre mais ou menos, por uma ou por outra fórma, as resistencias derivadas das differenças originaes. Ainda hoje a Hespanha se esforça para conservar unidas as suas provincias, e para obrigal-as a se regularem pelos mesmos codigos, e a se organisarem pelos mesmos principios administrativos. Difficil empreza! Hoje, como em epocas passadas, resistem poderosamente a esse grande esforço os sangues diversos que gyram nas veias dos peninsulares. A pluralidade das origens dos velhos iberos ainda agora se patentêa nos ultimos dos seus descendentes!