Num convento solitario
D'Evora, cidade clara,
Claro celleiro de pão,
Existe uma imagem rara
Obra dum imaginario
Dos tempos que já lá vão…
É um menino Jesus,
De bochechinha brunida
Côr de maçã camoeza,
Mas no seu rosto transluz
Uma expressão dolorida
Que enche a gente de tristeza…
De tantissimas imagens
Nenhuma vi que mais prenda,
Que maior ternura expanda,
Com suas calças de renda,
Seu vestido de ramagens,
—E corôa posta á banda…
Gordo, nedio, bem trajado,
Deveria ser feliz,
Deveria estar sorrindo;
Mas o seu olhar maguado,
Tão maguado, tão lindo,
Que não o é, bem n'o diz…
Se não fosse por ser Deus
E o seu poder infinito
Ter sempre que o demonstrar,
Cá na terra e lá nos ceus,
Estenderia o beicito
—E desatava a chorar!…
Corre o tempo descuidado,
Passa uma hora, outra hora,
Atraz desta outras se vão
E, quem o vê, encantado,
Sem se poder ir embora
Numa perpetua attração…
Eu entrei com sol a pino.
Pouco depois da chegada
(Pouco a mim me pareceu)
Deixei de ver o Menino…
Não era a vista cançada,
—Foi a noite que desceu…
Mesmo assim lá ficaria
Absorto em muda prece
De quem mal sabe rezar,
Se o sacristão não viesse,
Com rodas de Senhoria,
Dizer-me que ia fechar…
Pudesse tel-o trazido
E não fosse eu rico, apenas
De phantasias, d'esp'ranças,
Punha-o num nicho florido
Por sobre as camas pequenas
Dum hospital de creanças…
Dum hospital modelar
Sustentado por meus bens,
Entre olaias e roseiras,
Cheio de sol, cheio d'ar,
E em que as boas enfermeiras
—Seriam as proprias mães…