Não, não foi dinheiro deitado á rua esse que o livreiro me aceitou envergonhado pelas odes com que eu hei de ir remando para as praias do futuro, em cujas agoas cristalinas se levantarão calices arrendados de saphira e prata, que servirão para barcas de banhos, e como a pag. 55 v. s.ª diz:
«Com seu olhar d'amôr quem se vestiu?»
Creio que na poesia d'essas futuras Deusas dos mares as vistas purissimas do amôr hão de substituir as camisolas de baeta e as coecas de algodão.
Este arrojo da poesia innovadora faz-me lembrar uma{7} historia que eu peço licença para contar a v. s.ª Dois beberrões celebres apostaram entre si que beberia de graça meia canada aquelle que a bebesse sobre comida mais insignificante. O primeiro comeu uma azeitona e despejou o copo, o segundo cheirou uma azeitona e enxugou o sino grande.
Entre os selvagens, uns vestem-se com tres quartas de panno crú, outros com um bracelete, alguns com um simples búsio, o sr. Anthero do Quental, sublime como o homem que cheirou a azeitona, veste com um olhar a geração futura.
E não digam os homens da prosa que o vestuário será então igual para todos, porque a diversidade das toilettes imprimiu-a Deus na elegancia visual das creaturas, fazendo dos olhos outros tantos alfaiates. O olhar da virgem formosissima corresponde á thesoura do Keill, a vista ordinaria da mulher do povo será uma especie de remendão de escada.
E como v. s.ª rasga a membrana que involve o ovario da geração contemporanea, na qual germina o futuro! E o trajo da gente voltará á simplicidade primitiva; e o olhar d'amor tomará o logar da parra nos Apollos de gesso; e os defluxos abandonarão a raça humana; e as lavadeiras fugirão espavoridas em procura de gente que se vista por diverso teor.
Ha de ser a edade dos nús. A completa independencia do pensamento, que v. s.ª prega na sua preciosissima carta, não podia deixar de trazer a independencia da pelle humana. A nudez da alma, que bate as azas candidas para as regiões do infinito, não podia deixar de ser acompanhada pela nudez do corpo, que demanda os bafejos continuados das brizas; porque os tecidos são enfeites e ninharias luzidias, como os preceitos banaes da arte o são para o pensamento. As aspirações de v. s.ª hão de ser realisadas. No futuro a Idéa será livre: esta rainha esplendida, a que v. s.ª presta o devido culto, pisando as regras de uma orthographia mediocre, para a escrever com I grande, será a dominadora do universo.
Os vates abandonados a si mesmos terão a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independencia da alma. Tudo será independencia e liberdade, os versos parecerão{8} prosa, como v. s.ª faz ver em centenares de exemplos taes como o seguinte da 1.ª pagina das Odes Modernas:
«Vai, mas ignora sempre quem o leva