Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo buraco da fechadura:

—Adeus Leandros, boas noites.

E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada:

—Com bem passem, senhores doutores.

O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte, para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava, seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres. Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si:

—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!

Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e escandalisados.

Em quanto um mestre de atraz da Sé tomava as medidas, fallou-se de politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em serrilha opinou:

—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos são de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...