Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o Afasta, janota, arreda. O padre João via-a pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando disfarçadamente.

—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.

Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.

A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras, ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme os cambiantes da lucta.

—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.

Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia de fervor beato.

Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.

—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.

Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E berrava pelo caminho: