Tomarás 12 cartas d'um naipe, com as duas falsas o oito, e o nove, e darás o valor á sóta de 10, ao valéte de 11, e ao rei de 12, depois formarás um circulo a modo d'um mostrador de relogio, começando do az até o rei, e todas de cara a baixo; mas deves ter sentido aonde fica a 1.ª que é o az; depois sabendo tu as horas em que qualquer sugeito costuma jantar, cear, ou dormir, farás o jogo por um de 2 modos; o primeiro é mandar contar desde a uma inclusivè ao revés, isto é, da uma que passe ás 12, depois ás 11 etc., e sobre a hora que elegerem em segredo até 14; e pelo segundo, mandarás contar sobre a hora que levar em o seu pensamento, até um certo numero; isto é, que para a uma hora mandarás contar sobre ella inclusivè até 14; para as 2, sobre as 2 até 15; para as 3, sobre as 3 até 16 etc. Exemplo: Quando quizeres que te caia a hora, por saberes que a esta hora costuma um sugeito jantar, mandarás que conte da uma hora ao revés sobre a hora que leva no seu pensamento até 14, e tendo o dito sugeito elegido a uma hora contará na carta que tu lhe propozeste (que é a uma) e dirá n'ella 2, nas 12 dirá 3, nas 11 dirá 4 e contando assim até 14, essa levantará e verá que é á uma hora; se fôr as 2, contará da uma até 14, sobre as 2 que leva no pensamento; isto é começando a contar na 1 hora com 3, até 14, ao revés; e assim por diante contando sempre até 14, e começando sempre na uma hora a contar sobre as que levar no pensamento. Exemplo do segundo modo: Sendo a hora elegida á uma, mandarás contar sobre ella até 14, sendo ás 2 mandarás contar das mesmas 2 até 15; sendo ás 3 mandarás contar das 3 até 16; ás 4 que conte dellas até 17, e assim por diante, mas advirta-se que sempre se começa a contar, sobre as que se levam no pensamento. Supponhamos que para as 4, mandarás começar no dito 4 na qual dirá 5 no 3, 6, no 2, 7, no az 8, nas 12—9, nas 11—10—assim até 17, cuja carta dos 17 levantará, e verão que é o 4, significando as 4 horas.
Outros muitos jogos aqui podia ensinar, o que deixo de fazer por serem muito difficeis e custosos de fazer.
O SUSPIRO
Vai, terno Suspiro meu,
Ligeiro fendendo o ar,
Nos labios da minha amada
Saudosamente expirar.
Mas primeiro, o meu suspiro,
Brando gira ante o meu seio,
E podes alguns momentos
Alli pousar sem receio.
N'esse logar delicioso
Espreita a mais leve acção:
Indaga attento por quem
Suspira o seu coração.
Se um só ai do peito amante
Lhe escapar e me pertença,
Então, então não expires,
Vem trazer-m'o sem detença.
Mas se aleivosa comigo
A outrem seu ai mandar,
Então nos labios da ingrata
Tu deves logo expirar.
Nada mais lenho a dizer-te,
Corre, vôa onde te ordeno,
Brandos zefiros te guiem,
Conserve-se o ar sereno.