E Theophilo correu logo á aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma cousa.

—Agora, disseram elles uns para os outros quando viram as grandes riquezas com que Theophilo appareceu, devemos ir tambem ao bom porteiro velho e trazer alguma cousa do seu thesouro. Vamos vêr a quem por sorte caberá a vez de ir lá abaixo.{30}

—Para que ha-de ser á sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de todos, e hei-de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.

Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o seu pão da saccola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castello. De novo se mostrou a corda retesada quasi até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada sahisse para fóra n'aquelle mesmo dia, porque sabiam que elle tinha lá em baixo boas cousas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite, e que lhes appareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Theophilo, ao pé do monte. A ausencia de Fernando foi pouco notada na aldeia; os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e elle não tinha uma mãi que o chorasse.

Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciencia sahiram com o gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguem tornou a ver Fernando, nem appareceu ninguem que tivesse animo para descer ao fundo do monte do castello, e apanhar o thesouro que lá está enterrado.{31}

[GRATIDÃO DE UM FILHO
E
INGRATIDÃO DE OUTRO]

(Hebel.)

Quem reparar um pouco, ha de ver muitas vezes que o homem na velhice é tratado por seus filhos exactamente do mesmo modo, como elle havia tratado seus paes, quando erão velhos e já sem forças. E isto comprehende-se bem. Os filhos aprendem com os paes; não veem nem ouvem mais ninguem, e por isso seguem o seu exemplo. Assim se verifica naturalmente o que tantas vezes se diz, e está escripto: «a benção e a maldição dos paes vem cair sobre os filhos.»

Ouçamos agora duas historias que se contão a proposito d'isto: a primeira é digna de imitação; a segunda merece ser muito meditada.

Uma vez um certo principe foi dar um passeio a cavallo, encontrou-se com um camponez diligente e alegre, que andava a trabalhar em um campo, e poz-se a conversar com elle.