E assim foi: pois crescendo o Chapelinho Vermelho, fez-se tão discreta e tão formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da visinhança, com o qual casou e viveu muito feliz.{37}
[O FATO NOVO DO REI]
(Anderson).
Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.
Se passava revista aos seus soldados, se apparecia nos espectaculos ou passeios publicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era um fato para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: «Sua magestade está em conselho de ministros», a respeito d'este dizia-se: «Sua magestade está no seu guarda-roupa».
A capital em que elle vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande numero de estrangeiros que alli concorrião. Um dia chegárão áquella cidade dois impostores que se annunciárão como tecelões, dizendo que sabião tecer um panno como nunca se vira. Era um estofo notavel, não só pela belleza das côres e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisivel para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estupido.
—Uma roupa d'esse panno deve ser impagavel—disse comsigo o rei;—por meio d'ella chegarei a conhecer quaes são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os intelligentes dos estupidos. Um{38} fato assim é uma cousa indispensavel.—Em seguida mandou adeantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo á obra.
Os aventureiros armárão effectivamente dois teares e pozerão-se a fingir que trabalhavão, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavão a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que ião ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vasios até alta noite.
Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefacto. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adeante alguem que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que elle tinha; cada um estava ancioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inhabil.
—Vou mandar o meu velho e honrado ministro,—disse comsigo o rei.—Ninguem, como elle, para avaliar a obra, porque alem de ser um homem fino, é irreprehensivel no desempenho das suas funcções.