«Vejo-vos moça; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura que tam cedo começou em vós, e tam tarde acaba em mim!

«Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim, como vos eu ouvi, não me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vós, senhora, assim fostes servida, eu sou contente.

«E já que não pudestes escusar desventuras, folgo em que vós folgueis de encobrir vossos males,—que o pesar ha este bem: Inda que não aproveite para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.

«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo, tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,—ou porque aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.

«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves, aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam, tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo, costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter verdade desconhecida!»

A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla, sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e, tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim, dizendo:

—«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros andantes.

«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó d'êles,—porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar, vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,—feitas para tam pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.

«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do que parecem aos homens.

«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz, menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se devia éla ter.