«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,—que a fortuna tinha já ordenado que fosse para sempre.

«Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lançando-lhe, amorosamente, os braços sobre o pescoço, esteve assim pensativa por um pouco.

«E êle, vendo que éla sonhára, pelo desacordo com que acordára, lhe preguntou:

—«Que cousa, senhora, foi essa?»

—«Sonhava, senhor (lhe respondeu éla) que estávamos, vós e eu, ambos presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos não via mais.»

«Lamentor, não lhe pareceu senão que lhe atravessavam aquelas palavras o coração (como na verdade assim foi) e assim êle, com isto que em si sentiu, se entristeceu grandemente.

«Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E não pôde tanto dissimular que o não conhecesse éla, e disse-lhe:

—«Que é isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?»

«Mudando êle o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a éla, para lhe escusar alguma imaginação, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe respondeu, dizendo:

—«Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha condição,—que nem dizer-vo-lo, nem cuidá-lo quisera. Houve melancolia. Perdoae-me, que de vós não se póde éla haver. Mas como os sonhos não venham senão do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me dissestes que sonhaveis que me não vieis mais) que era desconfiar do que vos quero, e de mim,—sendo vós bem segura de ambas as cousas, ou de cada uma.»