«E já, a éla, lhe ia falecendo a fala, levantando os olhos para sua irman, como forçadamente, disse:—«Chamem-no; chamem-no!»
«Foi a senhora Aonia, chorando desoladamente, chamar Lamentor, que no mais alto sôno dormia, dizendo-lhe:—«Acordae, senhor; acordae, que vos levam Belisa!»
«Ergueu-se apressadamente Lamentor, levando a mão a um terçado, que junto da cabeceira tinha; mas vendo chorar todos derredor da cama de Aonia, e Belisa, a quem tinham erguida até aos peitos, como passada d'este mundo,—abraçando-a, se chegou para éla, dizendo:
—«Que cousa foi esta, senhora?»
«E as lagrimas enchiam, com estas palavras, todo o rosto seu e o d'éla.
«Levantou então Belisa, cansadamente, uma mão, com a manga da camisa tomada, para lhe limpar os olhos; mas, não seguindo éla já a sua vontade, se lhe deixou a tornar a cair para baixo. E éla, pondo os olhos fitos n'êle: «Não mais, disse, para sempre!» E, d'ahi, os foi cerrando, vagarosamente, como que lhe pesava de o deixar assim.
«Lamentor, que isto não pôde ver, caiu para o outro lado, como morto, e assim esteve um grande pedaço.
«N'este meio tempo, ouvindo a dona honrada chorar uma criança na cama; e cuidando o que era, atentou, e achou uma menina recem-nascida, que chorava muito.
«E, tomando-a então nos braços, com os olhos não enxutos, disse assim:
—«Ó coitadinha de vós, menina, que chorando vossa mãe nasceis! Como vos criarei eu, a vós, filha estranha, em terras estrangeiras? Mal vá ao dia em que assim saimos do mar, para passar toda a tormenta na terra!»