«E começaram em breve espaço os pastores a roncar, estirando seus rusticos membros, uns para cá, outros para lá, como ao sôno aprazia.
«Só Bimnarder não podia repousar, tendo no coração a quem êle não doía. E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sôno, d'êle o tinham desterrado os seus cuidados.
«Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo parecia, com o corpo só) á senhora Aonia, ausente, êle a ouvia chorar.
«E em a longa noite esteve assim, 'té que aquele cansado corpo adormeceu aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e fantasias ocuparam a outra.
«Mas, depois de um pouco de sôno, acordou êle, todo banhado em lagrimas, porque sonhára, chorando, que o levava d'ali, por força, a sombra que vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento, assentou consigo de se não ir d'aquela terra, 'té vêr o que podia ser d'êle n'aquele cuidado, que o assim tomára, e assim o seguia.
«D'esta maneira, cuidava êle que não iria contra aquilo que, porventura, lhe adivinhava o sôno, se o fizesse.
«Tamanho desejo tinha de se não ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda com êle, que grande rebanho lhe parecia que trazia.
«E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria com que lhe não fosse sobejo qualquer pastor.