«E, parece, como trazia o pensamento ocupado do pastor, foi-se-lhe afigurar o que receava, pois cuidou que o que fazia a ama seria com dó do pastor, que assim tambem chorava éla quando lhe contava o que fizera êle o dia antecedente. E a primeira palavra que lhe disse foi:—«E o pastor?...»

«Descansou a ama com isto que lhe ouviu, parecendo-lhe que esmorecêra éla por ver a afronta tamanha em que se pusera o pastor, como é costume das mulheres.

«Mas n'éla era outra cousa maior, que estava ainda ha bem pouco tam longe de poder ser como éla de o poder então cuidar.

«Mas tudo já póde ser; ao longo tempo, não é nenhuma cousa nova.

«Contou-lhe então a velha ama tudo o que passara o pastor. E, tornada em suas forças, se ergueu Aonia, e puseram-se ambas um pouco a olhar para o touro, que no chão jazia.

«Estava ahi muita gente, dos oficiaes da obra e de casa; e se não fôra pela vergonha que havia Aonia de a verem, que era em extremo bem acostumada, não se fôra éla d'ali. Mas comtudo foi-se, já um pouco tam declaradamente contra sua vontade, que o entendeu éla; porém como era aquele o primeiro cuidado, não lhe pareceu de todo o que foi, senão que já consentia éla a si mesma cuidar que, se êle não fosse pastor, logo lhe quereria bem.

«Recolheu-se Aonia para a camara, a vestir-se; e, em se recolhendo, acertou de vir de fóra uma mulher de casa, que tambem, parece, saira a ver a peleja dos touros; e, entrando na casa onde ficara a ama, começou, um pouco alto, a falar-lhe, dizendo:

—«Quereis vós, senhora ama, saber?»

«Aqui, calou-se, como muito maravilhada.

«A esta palavra, que Aonia ouviu, se pôs a escutar detraz da guarda-porta da camara.