«Pensando-vos estou, filha;
Vossa mãe me está lembrando:
Enchem-se-me os olhos d'agoa...
N'éla vos estou lavando.
«Nascestes, filha, entre mágoa.
Para bem inda vos seja,
Pois em vosso nascimento
Fortuna vos houve inveja.
«Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes;
Vossa mãe era finada,
Nós outros eramos tristes.
«Nada em dôr, em dôr creada,
Não sei onde isto ha de ir ter...
Vejo-vos, filha, formosa,
Com olhos verdes crescer.
«Não era esta graça vossa
Para nascer em desterro.
Mal haja a desaventura
Que pôs mais n'isto que o erro!
«Tinha aqui a sepultura
Vossa mãe, e mágoa—nós;
Não ereis vós, filha, não,
Para morrerem por vós.
«Não ouvem fados razão,
Nem se consentem rogar;
De vosso pae hei mór dó,
Que de si se ha de queixar.
«Eu vos ouvi a vós, só,
Primeiro que outrem ninguem;
Não foreis vós, se eu não fôra;
Não sei se fiz mal, se bem!
«Mas não póde ser, senhora,
Para mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.
«Conforto mais duvidoso
Me é este que tomo assi;
Deus vos dê melhor ventura
Do que tivestes 'té aqui!
«A Dita e a Formosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo d'antes muito amigas.
«Muitos hão que é fantasia;
Eu que vi tempos e anos
Nenhuma cousa duvido,
Que tudo é sujeito a danos.
«Mas nenhum mal não é crido;
O bem só é esperado?
E na crença, e na esperança,
Em ambas ha 'hi cuidado,
Em ambas ha 'hi mudança!»

Capitulo XXII

De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia, se pôs devagar a ouvir a ama

«O pastor da flauta (que não era pastor) teve n'aquela noite maneira de, com um pau que colheu, arribar á fresta; e já estava n'éla quando começara o solau.

«Bem conheceu na limpeza das palavras, e na pronunciação d'élas, que a ama era natural d'esta terra, e avisada; por onde logo receou que, se não tivesse n'éla ajuda, teria grande estorvo.

«Encomendou-se á sua sorte.

«Acabou a ama de tratar da creança, que não foi tratada sem muitas lagrimas d'ambas, d'éla e de Aonia, que penteando-se esteve entretanto, segundo sentiu Bimnarder,—que êle nada de dentro podia bem divisar, pelo impedimento de um pano que diante da fresta estava, para amparo d'éla.

«Acabada a menina de tratar; apagando o lume, se deitaram élas; e, porque a ama tinha sua suspeita, fez que dormia, para espreitar a Aonia; e Aonia, porque tinha seu cuidado, não podia dormir, e ora se revolvia para uma parte, e ora para outra; e outras vezes, após um socego de um pouco, (colhendo folego) dava um baixo suspiro longo, á maneira de cansada d'aquilo que acabara de pensar.

«Esteve tudo a ama notando por um grande pedaço.