—Que queres? transpira-se muito neste Rio de Janeiro... o sol derrete...

—Fosse essa a causa...

—Não sei de outra.

—Disse-me o Patricio (Patricio era um trocatintas do meu conhecimento), que tu sacrificas em demazia ás graças...{80}

—És tu quem sacrifica a verdade á peta, trepliquei, pelo gostinho de alardeares certa illustração. Quem ainda não sabe que Platão aconselhava ao discipulo Xenócrates, austero, como Newton, nos costumes, a sacrificar ás graças? Ouve o que do mesmo Xenócrates disse o padre José Agostinho na Viagem extatica:

«Da belleza inimigo e da ternura,
Xenócrates descubro austero e triste,
Vergonhoso baldão da especie humana,
Que nem ao vivo scintilar de uns olhos,
Nem ao mago sorriso deslizado
De um labio, côr de purpura, ou de rosas,
Ou aos aureos anneis de tranças de ouro,
Da natureza escuta a voz suave,
E sopro avivador, que atêa o fogo,
Tão grato ao coração, que é delle a vida;
Fogo, que até do mar no abysmo fundo
Sujeita a seu imperio equóreos monstros,
E a sanguinario tigre, indocil sempre,
Amar ensina, e conhecer ternura.»

—Isto disse o padre, como entendedor que era, na Viagem extatica que, ao depois, crismou com o nome de Newton emendando entre outros, este verso, que tu nem ninguem recitará sem ao principio latir o seu pouco:{81}

OU AOS AUREOS—anneis de tranças de ouro.

—Concorda, prosegui, não me achaste descalço. Agora o suppores que abuso do sacrificio é outro engano. O nequid nimis—equivalente ao preceito de Hippocrates:

«Omne nimium naturae inimicum est» foi sempre a minha divisa.