Da caravella Santiago apenas restavam despojos que o mar ia trazendo á praia, onde os naufragos se encontravam á conta de Deus, sem guarida nem conforto algum que lhes alentasse{70} a vida! E comtudo grande distancia os separava dos companheiros, que esperavam o seu regresso, no porto de S. Julião.

Os naufragos depois de terem caminhado umas seis legoas, para alcançarem as margens do rio Santa Cruz, seis legoas que levaram quatro dias a percorrer, tal era o cansaço e fraqueza em que estavam, e para mais carregados de madeira, destroços do navio naufragado, com que haviam de construir uma jangada para atravessar o rio, chegaram emfim ás margens do Santa Cruz, quasi mortos de fadiga e de fome, pois que para se alimentarem apenas tinham as ervas que encontravam pelo caminho e alguns mariscos.

No rio Santa Cruz havia abundancia de peixe para se alimentarem, e construiram uma jangada com a madeira que traziam e assim, debaixo de grandes perigos atravessaram o rio dois marinheiros para irem participar o occorrido ao chefe da esquadrilha, que estava no porto de S. Julião.

Segundo diz Diego Arana, onze dias gastaram os dois marinheiros para chegarem a S. Julião e tão penosa foi esta jornada, sem terem quasi que comer, que ao apresentarem-se a Magalhães, nem este nem os mais companheiros os reconheceram, tão desfigurados vinham.

O tempo continuava tormentoso; as tempestades{71} succediam-se não permittindo qualquer tentativa de navegação. Entretanto Magalhães não lhe consentia o animo deixar sem prompto auxilio os pobres naufragos da Santiago, e assim ordenou que logo partissem por terra 24 homens carregados de comestiveis, em soccorro d'aquelles desgraçados, proporcionando-lhes os meios de virem reunir-se a seus companheiros.

Não foi menos penosa a jornada d'estes 24 homens, sob os rigores do tempo e a selvageria dos caminhos. Para saciar a sêde tiveram que derreter gelo, pois não encontraram agua de beber, e apesar das difficuldades do caminho apressaram quanto poderam a marcha para mais breve soccorrerem os seus companheiros.

Dois dias levaram a atravessar o rio na jangada que haviam armado, e mais refeitos pela alimentação que tomaram lá se pozeram todos em marcha a reunirem-se á esquadrilha, sem perda de um só.

Este contratempo foi de bom aviso para Magalhães que reconheceu quanto era temerario o tentar proseguir em reconhecimentos da costa ou passar avante, emquanto não se acalmassem os rigores da estação.

A fidelidade e energia de Serrão tornou-se notavel, e Magalhães não o desconheceu pois que nomeou o ousado piloto, capitão da{72} caravella Conceição, justo premio de quem tanto se tinha exposto e soffrido para bem cumprir as ordens do chefe.

Emquanto, porém, a esquadrilha invernava no porto de S. Julião, Magalhães foi aproveitando o tempo em reparar as caravellas e para isso mandou fazer em terra uma casa para forjas onde os ferreiros exercessem o seu officio. O frio, porém, era tão intenso que os operarios mal podiam fazer uso das mãos, chegando alguns d'elles a perderem os dedos gangrenados pelo frio!