Herrera diz, que por ordem de Magalhães foi a caravella Santo Antonio fazer novo reconhecimento no canal, mas sem resultado, porque tendo Mesquita avançado umas cincoenta leguas, não lhe achou o fim, pelo que resolveu voltar á frota a dar parte da sua viagem a Magalhães.

Vinha talvez mais convencido de que o canal ou estreito só teria mais perigos para quem o quizesse devassar, do que levaria a bom termo de viagem. Magalhães, porém, não se desconcertou com o resultado do reconhecimento de Mesquita, e antes resolveu terminantemente seguir avante, convencido{90} de que passaria o estreito e encontraria, emfim, o mar da India ou do Sul.

Não quiz, porém, levantar ferro, sem reunir na Trindade—navio almirante—o conselho dos capitães, para lhes communicar a sua resolução e saber ao certo dos mantimentos que havia, para que tempo chegariam.

Reunido o conselho, os capitães declararam que havia comestiveis para tres mezes. Quanto á resolução que Magalhães lhes communicou todos se mostraram concordes, talvez mais por obediencia ao chefe, do que por convicção do bom exito do commettimento. Apenas o piloto Estevão Gomes, parente ainda de Magalhães, descordou dos seus companheiros, ponderando que corriam grande perigo em proseguirem, pois que os temporaes ou as calmarias que atrazassem a travessia, poderiam inutilisar tudo, perdendo os navios ou reduzindo todos á fome, de que morreriam. Magalhães combateu moderamente a opinião de Estevão Gomes, affirmando que o canal que encontraram era a passagem para o mar do Sul, e tinha a certeza do que dizia, porque, na thesouraria de Portugal vira uma carta de marear desenhada por Martim Behaim, em que estava traçada aquella passagem, de que não podia duvidar agora. O enthusiasmo de Magalhães{91} chegou a tal ponto que disse ao conselho: Ainda que para chegar ao fim tivesse que comer as pelles de vacca que forravam as antenas dos navios, não retrocederia sem cumprir o que havia tratado com Carlos V.

Todos se submetteram á vontade do chefe, e no dia seguinte a frota soltou vellas e navegou pelo estreito fóra até á grande bahia de S. Bartholomeu, onde os navegantes depararam com um grupo de ilhas.

A frota lançou ferro, e Magalhães mandou fazer um reconhecimento n'um canal ao sul, pelas caravellas Conceição e Santo Antonio.

Ao sul ficava terra, a que Magalhães pôz o nome de Terra do Fogo, por ter observado, de noite, grandes fogueiras que lá ardiam. Aquellas terras ainda hoje conservam esse nome.

Nada adiantou o reconhecimento que Magalhães mandou fazer, porque a caravella Conceição voltou breve sem nada trazer de novo, e a Santo Antonio, debalde a esperaram, não a tornando mais a ver.

Esta falta inquietou sobre modo a Magalhães, pelo receio de que se teria perdido o navio, e ainda empregou esforços para o procurar, mas tudo foi inutil, dando acerto ao parecer do piloto André de S. Martim, que disse a Magalhães que a caravella voltára{92} para Hespanha, como effectivamente voltou, tendo a companha sublevado-se contra Mesquita, ao qual prenderam, dando o commando do navio a Jeronymo Guerra, que ia a bordo como escrivão.{93}

XIV