No dia seguinte o rei convidou Pigaffeta e o seu companheiro para almoçarem, mas os dois retiraram para bordo, agradecendo{108} a boa hospitalidade, beijando n'essa occasião o rei as mãos dos visitantes ao que estes corresponderam beijando as mãos do rei.
Assim entabolaram os navegantes relações com a gente da ilha de Masavá que tão bem os recebeu, que a frota ali se demorou até 4 de abril, em que de novo se fez ao mar no proseguimento da sua derrota.
Durante o tempo, porem, que ali permaneceu passou o domingo de Paschoa e n'esse dia desembarcaram uns cincoenta homens meios armados com o respectivo commandante, e um padre para dizer missa em terra, n'um altar que se armou.
Foi grande a admiração d'aquellas gentes quando isto viram e perguntados se não professavam nenhuma religião, responderam erguendo as mãos para o ceu, como que dando a entender que reconheciam um ente supremo a que chamavam Abba.
Assistiram os reis á missa e, ao offertorio beijaram a cruz e adoraram a hostia consagrada, imitando tudo que viam fazer aos christãos.
Quando terminou a ceremonia Magalhães apresentou uma cruz grande, diante da qual todos se ajoelharam incluindo os indios, e fez entender ao regulo que aquella cruz era o estandarte que o rei christão lhe havia confiado para implantar em toda a parte que{109} chegasse; que n'aquella terra a ia collocar no sitio mais elevado para que todo o mundo a visse e a todos desse signal de ali terem sido bem recebidos pelos naturaes, o que faria que outros que aportassem aquella ilha os tratassem bem. Que os seus habitantes deviam, todas as manhãs fazer adoração aquella cruz, por que ella era o symbolo da redempção.
O rei prometteu a Magalhães fazer o que este lhe dizia e ordenar aos indios que assim o observassem.
A docilidade d'aquella boa gente deixou captivados os navegantes e fortaleceu-lhes o animo para seguirem na sua empreza civilisadora, não concorrendo menos para augmentar a auctoridade moral de Magalhães sobre a sua gente.{110}
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[[8]] Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.
A obra de Mallot Les Philippines, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.