Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão facilmente abraçarem{113} a religião de Jesus Christo, porque de certo o espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.
Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.
Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem dado descargas de polvora secca.
Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.
Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão dos habitantes{114} da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes obediencia.
Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.
O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros, chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula, mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe presentes em troca dos que d'elle recebera.
Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá inferir pelo modo como Lula procedeu.
Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto, persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o Lula{115} que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra, elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.
Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua coragem e valentia.