—O padre Osorio está-se a rir?!—invectivou fr. João abespinhado. Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade de S. Thiago d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era muito seguro em materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico nas suas predicas, e que dava mais importancia á quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.

—Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo pôdre—obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada indignação o missionario.—A respeito da enfermidade de Martha, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras vezes a sciencia vence—o demonio da demencia hereditaria que a não se curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta. Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos, ouvisse a opinião dos medicos.

—Eu sei o que dizem os medicos—e sorria com menospreço da pobre medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou, e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Christo expulsava demonios?

—Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos...

—E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses factos a que o padre Osorio chama historias; não são historias, são factos.

—Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então!

A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo, exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos. Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:

—A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José Alves?

—E depois?

—Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos...