Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de immundo, affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento; parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se não estiver quieta, póde-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos!
O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem acôrdo.
—Victoria!—exclamou o exorcista—victoria!
E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr. Feliciano: O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S. Marcos:—Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual diz o texto: Et factus est sicut mortuus. Depois, com jubilo, limpando o suor:
—Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do travesseiro.
Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito, Carlos Baucio, na Arte do exorcista, legisla: «que os exorcistas não ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo mulher (propter periculum), pois que as mulheres nem com o signal da cruz se devem tocar—Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ.
Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do inferno e mais os exorcismos.
Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D. Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias; outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos estridentes.
O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e disse-lhes com um racionalismo brutal:
—Ah grandes coiras!