—Veja lá como falla...—interrompeu o lavrador ferido na sua linhagem.—Você não me deite a perder...

E o outro, n'um impeto de consciencia robusta:

—Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu alma de cantaro?—E n'uma irritação crescente:—Se você não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira.—É muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:—Guarde a filha que eu hei de achar mulher muito melhor que ella pelo preço, ouviu você? que leve o diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De você não póde sahir cousa boa; e mais da mãe que ella teve, que já lá está a dar contas...

E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito de ordem e paz:

—Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?

—Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do Reguengo de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não quizeste?—e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.—E continuava:—Quem lhe déra dois pontapés, n'elle a mais n'ella!—e muito rubro de colera dava pancadaria nas pedras, nas raizes nodosas dos castanheiros, e mettia grande terror no animo do Simeão quando faiscava lume nos calhaos com a percussão do machado.

Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Martha o ouvisse.

Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume, desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia sarcastico:

—Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar os miolos á cara de você.

Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante—que os cães não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:—que venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a fazer meia com a cesta do novello no braço.