A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios, explicações. Que estava uma obra profunda—dizia o fidalgo instruido em fim nas obscuresas do estylo.
E, tirando seis pintos do bolso do colete:
—Ahi tem para o seu rapé, merece-os.
O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás necessidades do snr. D. Miguel.
—É um realista ás direitas, padre, um grande realista!—E, guardando os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um calice de 1817.
—Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade—dizia o padre Rocha.
—Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai commigo, e póde logo vir despachado. Pois então?
—Está dito!—e o padre com um regosijo muito comico, e o calice aromatico de baixo do nariz:—Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó snr. tenente-coronel!
—Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não tenha duvida. Isto vai tudo mudar!—E carregava-lhe forte no 1817.—Arre! estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com a espada! Ha-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquillo não era bonito. Pois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! môcada de metter os tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles por uma vez! uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! meu camarada Telles Jordão! tu é que a sabias toda!»
O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O padre despediu-se.