—Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim!

El-rei proseguiu:

—Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista: Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros. Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso, sentou-se a escrever—e que conversassem.

O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas.

Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas, muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa. Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto, troncos de giestas como a sua coxa—e mostrava—; tinha apanhado de raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na clareira; e mal elle apontou, pumba! metteu-lhe tres zagalotes no quadril.

—A gente a fallar incommóda talvez el-rei...—observou o barão de Bouro.

—Podem conversar á vontade, que não me incommodam.

—Aquillo é que é cabeça!—disse baixinho, tocado, um dos conegos a outro conego.

Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos, com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos.—A virar! a virar!—Carminavam-se os conegos. O dom Prior de Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois padres Marcos, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S. Gens de Calvos, dizia do outro:

—Forte bebedo!