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O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á hospedaria dos Dous amigos. O Cerveira vestia casaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria, afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que parecia pantominice das comedias, dizia o Zeferino.

Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas mandavam-lhe bilhetes.

Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas, ratices suas em Braga, quando era rapaz.—Que fizera um destrôço nas primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira; e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde. Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se parecia bastante com elle.

O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou:

—E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso?

—Elle diz que é—respondeu o tenente—Veremos o que se averigua no governo civil.

—Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres falsos—disse emphaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do Zeferino, muito enfiados ambos.

—Está tudo perdido!—disse dolentemente o fidalgo—El-rei preso!... E não se levanta este Minho a livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se lhe posso fallar. Dentro de tres dias entro em Braga com dez mil homens e arrazo a cadeia.