—E, se o vir agora, conhece-o?...

—Parece-me que sim—o padre limpava á pressa os beiços amarellos dos ovos do arroz dôce.—Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?

—Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas.

—Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco?

—Venha de lá isso.—Bebeu d'um trago, e pediu outro:—Agora, á saude de el-rei! á saude d'aquelle que talvez esteja bem perto de nós! a cem passos!

—Toque!—exclamou o abbade.

Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião viesse muito a geito.

—Você está a sonhar, homem!

Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as fallas:—Canalha brava, calaide-vos ahi!—Uma balburdia que parecia um theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da eira, dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.

—É entrudo, dizia, é entrudo, senhor!